terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Rupturas

RESUMO:
Os autores procuraram, de forma breve, situar a psicanálise dentro de um contexto histórico-cultural desde o seu surgimento com Freud até os dias atuais. Mostram como esta é mesmo fruto de uma ruptura com as ciências e valores tradicionais e que seu trabalho hoje, como outrora, projeta-se na linha de frente de necessárias rupturas com um estado de coisas que transtorna a existência do indivíduo.

I 
A modernidade caracterizou-se pelo abandono das formas clássicas, consonantes e harmônicas, bem como pelo irromper do espírito dividido em contradições. Na aurora deste período nasceu a psicanálise. Freud observava os sonhos e deles extraía a estrutura e a dinâmica da vida mental, descobrindo, através deles, o funcionamento da vida de vigília (Herrmann, 1979). Promoveu, assim,com seu método de investigação, uma ruptura com o pensamento científico tradicional. Seu método de pesquisa foi revolucionário, desde o momento em que tomou a si próprio como objeto de suas observações. Na publicação desse trabalho investigativo, ele revelou não apenas o espírito científico de um pesquisador, mas a estética de um escritor.
Noemi Kon (1996), estudiosa da obra de Freud e de sua relação com a modernidade, nos fala que este pesquisador/escritor liberou sonhos e paixões para que reconduzissem a razão, possibilitando à sua obra a emergência simultânea de ficção e ciência (Kon, p.51). A proposição de Freud (1933) sobre as pulsões como “entidades míticas, magníficas em sua imprecisão”, afirmava essa relação entre a ciência e a imaginação em suas descobertas (Garcia-Roza, 1986). Contra o objeto e o método da ciência de seu tempo, Freud inaugura um novo destino, já que a partir daquele momento a intimidade do cientista dirige seu olhar e é objeto de sua atenção (Kon, p. 70). Assim, pela ousadia de observar aquilo que se lhe ocultava (o Inconsciente), ele chegou à descoberta da psicanálise. A “Interpretação dos Sonhos” é o testemunho disso. Mais que nos sonhos de outrem, ali ele mergulhou nos seus próprios e os revelou. Por essa época, comunicou a Fliess: “A Psicologia está avançando de uma maneira estranha, está quase terminada, redigida como que num sonho”. Referia-se à “Interpretação dos Sonhos”. Segundo depoimentos de familiares a seus biógrafos, Freud encontrava-se nesse período num estado semelhante ao oníric (Mahony, citado por Kon, p.143). A autora comenta a informação acima propondo que nessa fase Freud sonhava para escrever e escrevia para sonhar. Seu livro dos sonhos é assim vivido como proveniente de uma escrita que lhe escapa [...] e que tem, também como no caso dos escritores criativos, seu material originário de suas próprias lembranças e desejos infantis (Ibid., p.143).
A psicanálise nasceu rompendo com os sistemas científicos tradicionais de observação e pensamento, colocando num mesmo plano, pela primeira vez no palco das ciências, a paixão e a razão, o sonho e a vigília, a sanidade e insanidade. Para além do racional, desvelaram-se as forças do irracional, da sexualidade e da paixão. Freud desaloja a consciência e inclui os conflitos do eu (Kon, p.69). Ruptura é, então, raiz e tradição da psicanálise, está entranhada em sua origem e em sua prática: na clínica, o método clássico de decomposição do discurso leva à descoberta de novos sentidos e de novas questões. Ou seja, rompe-se com o território da razão para redespertara paixão para que esta, por sua vez, reconduza a razão; abre-se passagem pelo visível para que o invisível se desvele e redirecione o olhar; penetra-sena consciência para se estabelecer uma interlocução com o inconsciente promotora de transformações na consciência.
Destes movimentos dialéticos, novas e imprevisíveis proposições teóricas e técnicas se dão: novas combinações promovem novos conceitos que podem, então, dar abertura a novas configurações. E assim, novas articulações da teoria clássica com as situações clinicas atuais promovem novos sistemas teóricos, abertos a novas combinações. Rêverie e memórias-sonho (Bion, 2006) passam a ser qualidades da escuta analítica.
Nestes termos, o fazer do psicanalista através de sua escuta e de suas interpretações, se dá pela abertura de fendas no campo conhecido do analisando para fazer emergir o desconhecido: com isto, ele desfaz ligações fechadas e saturadas e promove dimensões novas de pensamento, abalando crenças sedimentadas e acionando um novo modo de ver e pensar. Analisar, portanto, será desarticular o já sabido para promover um novo saber, uma nova compreensão, tanto para o paciente quanto para o analista. Será afastar-se do conhecido e suportar a falta de um novo sentido. Chuster (1999), referindo-se ao fechamento de sentido na compulsão de repetição diz que é “na ruptura desse fechamento que se instala o processo analítico” (p.15).
  
II 
Vinãr (2009), analisando a Pós-modernidade, propõe que esta se caracteriza por uma velocidade de mudanças de crenças e de valores que desestabiliza um equilíbrio antes mantido entre o antigo e o novo, provocando uma crise tão profunda de referenciais, especialmente nos jovens, que “exige a cada sujeito um maior trabalho no parto de sua singularidade” (p. 53). Este autor aponta para uma mudança de mentalidade em relação ao efêmero, ao transitório e ao definitivo. Com a contemporaneidade, caracterizada por uma crise de referências, o mesmo propõe como função do trabalho analítico reabrir um espaço que integre presente, passado e futuro, este “suprimido pela urgência e frenesi de uma atualidade escaldante” (p.53). Compreendemos que desse modo a vida pode se abrir para uma experiência mental, na construção de uma história que se segue em compreensão aberta e criativa destas experiências  (Bollas, 2002).
Bauman (2008) nos fala da contemporaneidade como o tempo dos medos e da falta de esperança, diferentemente de épocas passadas em que havia um sentimento de expectativa de desenvolvimento progressivo, onde cada dia poderia ser melhor do que o anterior. Atualmente a confiança na progressão foi substituída por um constante sentimento de ameaça pela aceleração dos acontecimentos. Época dos “tempos líquidos”- porque tudo muda rapidamente-, nada é feito para durar, para ser sólido. Há uma busca de prazer eterno e de evasão da experiência de dor resultando, entre outras coisas, na obsessão pelo corpo ideal, no culto às celebridades, na insegurança e na instabilidade dos relacionamentos amorosos. Tempo do “cada um por si”.
Poderíamos pensar na gama de manifestações atuais de culto ao corpo, das relações com seus objetos internos e externos, pautadas numa violência, que destroça, permanentemente e com muita crueldade, seu mundo interno, produzindo uma enorme dor masoquista narcísicas que tornam o sujeito isolado, apenas cercado de relações com objetos-fetiche, onde o indivíduo fica imerso num mundo de controle e de relações perversas (Green, 2005).
Então, na contemporaneidade, caracterizada não mais pelos conflitos do eu, mas pelos esgarçamentos e fragmentações, compete ao analista acolher o que encontra-se rompido, esfiapado, ou desfeito, ou desmontado, ou desnaturado, ou diluído para, assim, promover a criação de novas e toleráveis tramas no tecido mental, geralmente precário para essa sustentação. Dito de outro modo, cabe-lhe possibilitar a criação ou recriação de um continente para os conteúdos mentais (Bion, 2006). Num tempo de relações esgarçadas e líquidas (Bauman, 2008) é preciso que o analista suporte as ausências do paciente para ajudá-lo a criar espaços produtivos de trabalho analítico. Nesse tempo de vazios interiores (Kristeva, 1995), de sensorialidade excessiva (Türcke, 2010) e não simbolizada, do irrepresentável (Botella, 2002), será o analista quem irá precisar sonhar pelo paciente (Ogden, 2010; Grotstein, 2003) usando-se, para isto, de sua emoção, de sua imaginação e de sua intuição para ajudá-lo a construir representações psíquicas, talvez nunca antes alcançadas. Em relação às barreiras narcísicas– condição sempre presente num trabalho desta natureza --, a função do analista, seria a de promover o espaço necessário para o estabelecimento de uma relação, de um vínculo de proximidade e de intimidade que sustente a possibilidade de um trabalho analítico.

III 
Independentemente do momento cultural que atravesse um grupo ou sociedade, o desenvolvimento humano será sempre marcado por processos de ruptura, dos quais o modelo prototípico é o nascimento que demarca a passagem da vida intrauterina para a extrauterina. Tal ato exigirá do bebê um trabalho de respiração e de sucção. O mesmo ocorre, p. ex., com o desmame, com a passagem da infância para a adolescência e desta para a vida adulta, com as questões da sexualidade relacionadas às vivências pré-edípicas e edípicas, assim como com as inúmeras e distintas vivências de encontro e separação. Bion denominou esses processos de cesuras, que são cortes, que a um só tempo acionam novo(s) movimento(s) e permitem o trânsito entre o antes e depois. Nessas transformações, cada fase que dá surgimento à outra preserva seus registros. Assim, estas diferentes etapas coexistem, algumas se manifestando mais fortemente que outras de acordo com cada momento. Este modelo de funcionamento mental permite que se trabalhe com a perspectiva de trânsito por essas camadas, ou seja, pelas múltiplas formas de funcionamento mental (Bion, 1996).
Dentro desta perspectiva, na qual os aspectos primitivos e os aspectos amadurecidos da personalidade coexistem em relação permanente e dialética, compreende-se que, na contemporaneidade, a função do analista seja a de abrir canais de comunicação com o paciente que permitam o trânsito, a fluência emocional pelas múltiplas dimensões de seu mundo mental, estas advindas das rupturas e continuidades, próprias do evoluir da vida humana. Tal comunicação exige do analista uma ampla intimidade com sua própria mente, uma criatividade de mente sonhante e pensante capaz de atravessar essas fendas e de alcançar essas variadas dimensões. Trata-se de uma abertura e de um trânsito contínuo que o analista faz de seu consciente para o seu inconsciente e para o inconsciente do analisando; e, mais além disto, que a dupla analítica faz de inconsciente para inconsciente. A experiência emocional (Bion,1991) direcionará esta abertura, proporcionando uma relação nova entre consciente e inconsciente (Chuster, 1999).

IV 
Compreende-se que a condição interna do analista em relação ao seu trabalho analítico, hoje, não difere daquela vivida nos tempos da criação da psicanálise – a mente sonhante de Freud. Atualmente, é na vivência do desenvolvimento da sessão que o analista experiência muitas vezes estranheza, por esta estar sendo vivida como um sonho, em movimentos que surpreendem o presente e se abrem para um futuro desconhecido.
Entendendo que uma análise se dá nas tramas e intersecções entre o real e ficcional, o sonhar acordado do analista, com seus processos primário e secundário acontecendo simultaneamente, permite que certa qualidade de comunicação seja alcançada com o paciente; comunicação esta que pode ajudar a tecer o que foi esgarçado pelas rupturas vividas pelo paciente e que ele não pôde tolerar e sustentar e o levaram à fragmentação, à diluição, ao vazio, ao fortalecimento de defesas narcísicas ou à deficiência das representações.

É bem provável que atualmente nos deparemos com o analista precisando se desfazer de seus próprios credos e crenças psicanalíticas, aventurando-se corajosamente a dar ouvidos aos próprios sonhos e devaneios como via de acesso à liberação de algo que se pressupõe mais verdadeiro e que acontece entre a dupla naquele momento exato da sessão, ainda quando num primeiro instante, pareça não fazer nenhum sentido. Em outras palavras, a figura do analista contemporâneo rompeu com a figura do analista decifrador e detentor do saber (teórico/intelectual), para valorizar e vivificar a experiência emocional que o encontro com a mente do analisando lhe propicia em forma de sonhos ou devaneios.
Considerando que o que está vivo está em constante mutação, as macro e microrupturas fazem parte deste evolver. Assim, ruptura é uma invariante. Precisamos encontrar modos de intervir neste funcionamento quando a mesma se apresenta como bloqueadora do crescimento para devolver-lhe o potencial de desenvolvimento. Podemos nos referir a isso como ruptura da ruptura.
Para finalizar estas considerações, coloca-se uma questão vista como da maior importância e para a qual ainda não se vislumbram respostas: como será o analista do futuro, sendo ele um sujeito engendrado nesse universo “líquido” de nossa contemporaneidade?


Bibliografia:

BAUMAN, Z. (2008). Medo líquido. Zahar, Rio de Janeiro.
BION, W.R. (2006). Atenção e interpretação. Imago, 2ª. Ed., Rio de Janeiro.
_____, (1991). Aprendendo com a experiência. Imago, Rio de Janeiro.
_____, (1996). Uma memória do futuro vol. III: A aurora do esquecimento. Imago, Rio de Janeiro.
BOTELLA, C & BOTELLA, S. (2002). Irrepresentável: Mais além da representação. Criação Humana, Porto Alegre.
CHUSTER, A.(1999) W. R. Bion novas leituras: dos modelos científicos aos princípios ético-estéticos. Vol. 1: parte teórica. Companhia de Freud, Rio de Janeiro.
GARCIA-ROZA, L. A. (1986). Introdução à metapsicologia freudiana. Jorge Zahar, Rio de Janeiro.
GREEN, A. (2005). Ideas directrices para un psicoanálisis contemporáneo: Desconocimiento y reconocimiento del inconsciente. Amorrortu, 1ª. Ed., Buenos Aires.
GROTSTEIN, J.S. (2003). Quem é o sonhador que sonha o sonho? Um estudo de presenças psíquicas. Imago Editora, Rio de Janeiro.
HERRMANN, F. (1979). Andaimes do real: o método da Psicanálise. Casa do Psicólogo, São Paulo.
SCALIA,J.(2002). Exploring the Work of Christopher Bollas. The Vitality of Objects, London and New York: Continuum, pg. 179-222.
KON, N. M.(1996). Freud e seuduplo: Reflexões entre Psicanálise e Arte. EDUSP/Fapesp, São Paulo.
KRISTEVA, J. (1995). As novas doenças da alma. Ed. Rocco, São Paulo.
OGDEN, T. H. (2010). Esta arte da psicanálise: Sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Artemed, Porto Alegre.
TÜRCKE, C. (2010). Sociedade excitada: filosofia da sensação. Editora da Unicamp. Campinas.
VIÑAR, M. N. (2009). Mundos adolescentes y vértigocivilizatorio. EdicionesTrilce, Montevideo.

Adriana Laura Navarrete Bianchi
Ana Rita Nuti Pontes
Maria Aparecida Sidericoudes Polacchini
Maria Lucimar Fortes Paiva Defino
Nilton Cesar Bianchi


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O MENINO QUE PERDEU A LUZ DOS OLHOS

RESUMO: Neste trabalho, a autora propõe algumas ideias e reflexões a respeito da construção da linguagem e do estabelecimento do diálogo na sessão analítica.
Partindo da experiência clínica com uma criança, que logo após sofrer a perda total da visão, foi estabelecida entre ela e sua mãe, uma relação de simbiose psicótica. Nesta relação, mãe e filho mantinham-se colados um no outro, sofrendo juntos uma fratura quanto a capacidade de estabelecer um contato com a realidade interna e externa.
Nos primeiros meses, atendendo a solicitação da mãe, ela entrava com seu filho no colo, sentavam na poltrona, e lá permaneciam paralisados, silenciosos, sem que qualquer atitude da analista provocasse algo diferente no campo analítico.
A autora sugere que a função paterna exercida pela analista, aliada a atividade do Brincar, possa favorecer o resgate desta relação aprisionante. Esta aliança promove o trânsito entre a realidade e a ficção, permitindo a busca por novas representações e significados. e consequentemente a conquista do diálogo.
A partir desta vivência, uma nova relação entre mãe-criança-analista foi estabelecida. Uma pequena fresta de luz se acendeu para iluminar o olhar desta criança para explorar a realidade interna e externa. A dosagem de luminosidade faz-se necessária, e exige fé, paciência afetiva e confiança.

Referências
Bion,W.R (1970). Realidade sensorial e psíquica. In W.R.Bion, Atenção e Interpretação, Rio de Janeiro: Imago.
___________ (1962). O aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago.
Briton, R (1998). Devaneio, fantasia e ficção. In Ronald Briton, Crença e Imaginação, Rio de Janeiro: Imago.

Fernanda Sivaldi Roberti Passalacqua
Membro efetivo da SBPRP

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

RESERVEM A DATA
10/04/2015

"Vida e Morte da Mulher no Universo da Ópera"

Sofrimentos e provações das personagens femininas nos libretos das óperas.
Apresentação musical e comentários a partir dos vértices histórico e psicanalítico
com Gisele Ganade diretora artística da Cia Minaz e Maria Aparecida Sidericoudes psicanalista da SBPRP


Realização: Espaço Cultural da SBPRP

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Será que nascemos todos Pinóquios?



  Uma mulher de 40 anos entra na sala de análise com uma revista onde tem a figura de uma marionete e diz: - Esta sou eu!
Surge na mente da analista à história do Pinóquio, o boneco de madeira que sonha um dia, ser um menino de verdade e que pode ser também um modelo rico para pensarmos alguns fenômenos atuais da clínica psicanalítica.
Na ficcção, Pinóquio “nasce”, ganha “vida”, começa a ter movimentos independentes, mas continua uma marionete, mesmo sem a presença dos fios. Ele é constantemente influenciado pelos estímulos externos e internos, reage a eles sem a possibilidade de sonhar e pensar, sem possibilidade de ser de verdade.
Seria esta a nossa condição básica?
Nascemos com algumas características impressas como uma madeira que traz em si a história de sua constituição?
Somos muitas vezes manipulados e usados  pelo mundo interno e externo?
Acreditamos que somente no aprender com a experiência emocional, na relação viva com uma outra mente, é que nascemos enquanto ser psíquico e começamos a existir. Pinóquio tinha uma ânsia em se tornar logo um menino de verdade e pedia que a fada azul, magicamente, o transformasse em um.
Assim chegam nossos pacientes, procurando sentido, com ânsia de existência, mas muitas vezes esperando da “fada azul-psicanalista” uma transformação mágica e sem dor. Até mesmo porque ainda não entendem a diferença entre estar vivo e existir, entre ter pensamentos e pensar pensamentos.
A busca de saber quem somos de verdade e de transformações que nos aproximem do nosso eu verdadeiro, o mais humano possível, passa pelas experiências vividas e transformadas.
Nascemos todos Pinóquio, originalmente de matéria bruta, com pensamentos inconscientes nunca pensados, os quais aguardam a companhia de uma outra mente para pensá-los.
Pinóquio nasce desta matéria e durante seu percurso em busca do tornar-se um menino de verdade, passa por situações que muitas vezes eram definidas como mentira, seu nariz crescia e ficou conhecido como um personagem relacionado ao conceito da mentira.
Será que Pinóquio mentia, ou não sabia o que era ser de verdade?
Este é um questionamento importante para expandir nossa condição de acompanhar nossos pacientes em histórias que muitas vezes parecem criações fantásticas, imitações, estados alucinados. Mas que na realidade, são estados ligados ao impedimento de pensar. A verdade seria o impedimento de pensar do menino, que incapaz de pensar não pode se aproximar da verdade psíquica.
A personagem fada azul tem uma participação muito importante nesta história, ela inicialmente é uma figura idealizada que poderia transformar Pinóquio em um menino de verdade. Entretanto, durante toda a história ela será a mente continente que entra em cena e assume seu posto como precursora ou como facilitadora e promotora de desenvolvimento da mente incipiente do boneco. Oferecendo sua “varinha-função alfa”, ela é uma companhia viva na trajetória de Pinóquio no vir a ser um menino de verdade.
A partir destas idéias, as autoras fizeram uma reflexão sobre a relação entre Pinóquio e a fada azul, e a transformação de boneco em menino de verdade, traçando um paralelo com a relação analítica. Esta transformação , onde o paciente esta no processo de vir a ser mais plenamente e o analista esta conhecendo a pessoa que o paciente está se tornando através da experiência compartilhada e vivida entre paciente - analista - verdade.
Todos nascemos Pinóquio, com pensamentos e verdades que esperam companhia para torná-los toleráveis, possíveis de pensamento e existência. Desenvolver o aparelho de pensar, liberta a dor e percebemos que o desenvolvimento da condição de pensar os pensamentos  é um processo LIBERTADOR.
“A visão emocional compartilhada, vivencia-se uma sensação de estar com a verdade.” (Bion 1962/1994, p. 137).

Carla Cristina Pierre Bellodi (Membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, Psicóloga)
Marta Maria Daud (Membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, Psicóloga)

Trabalho Premiado em primeiro lugar no Congresso da OCAL(Organização dos Candidatos da América Latina) INTEGRAÇÃO, DIVERSIDADE E DESENVOLVIMENTO, em 03 de setembro de 2014, em Buenos Aires.
Leia este trabalho na integra na revista digital TRANSFORMACIÓN - http://t.co/bkIFJNGGnl

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Homoparentalidade e psicanálise: uma breve perspectiva histórica

O Brasil não dispunha, no início do novo milênio, de leis que reconhecessem a existência das famílias homoparentais e garantissem seus direitos básicos. Elas não constavam nas estimativas populacionais oficiais e a literatura nacional a seu respeito era escassa. Mesmo o nome escolhido para batizá-las - família homoparental - era uma criação recente e polêmica. Havia quem sustentasse que essas famílias não deveriam ser nomeadas, em hipótese alguma, em função das preferências amorosas de seus fundadores. Mas esse cenário estava mudando, as famílias homoparentais entravam, para usar um termo de Michel Foucault (1999), na “Ordem dos discursos” jurídico, social e científico. Uma revolução estava em curso.
Concordo com Ogden (2010), quando ele afirma que:
O analista não apenas vive e trabalha nos termos da situação analítica, ele também vive e trabalha no contexto da situação social/política de seu tempo (...) O analista é responsável não apenas por permanecer receptivo e responsivo para a verdade do que está acontecendo no consultório, mas também para o que é verdadeiro no que está acontecendo no mundo externo (p. 42/43).
Decidimos estudar o fenômeno da homoparentalidade no início da década passada. Nesse trabalho são debatidos temas como: as mudanças nas configurações familiares no Brasil e em outros países, o declínio progressivo do patriarcalismo e o surgimento, mais recente, das demandas por direitos das famílias homoparentais. A história do surgimento do conceito de homossexualidade é retomada, apresentando a posição de Freud como uma ruptura com a tradição de sua época. As divisões internas do movimento psicanalítico também são mencionadas em dois momentos-chave: no debate sobre o acesso dos homossexuais à formação psicanalítica (nos anos 20) e na participação de psicanalistas em audiências de discussão a respeito do Projeto de Lei que tratava do tema da união estável entre pessoas do mesmo sexo no Brasil.

Sugestão de leitura:
TOLEDO, L; PAIVA, V. Homoparentalidade e psicanálise: uma breve perspectiva histórica. TRIEB/Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. V. XI no. 1 e 2 (jun./dez. 2012).
TOLEDO, L. Família e paternidade em meio à revolução: reflexões sobre a homoparentalidade no Brasil contemporâneo. TRIEB/Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. V. XII no. 1 e 2 (jun./dez. 2013).
ANDERSSEN, N.; AMLIE, C.; YTTERØY, E. A. Outcomes for children with lesbian or gay parents: a review of studies from 1978 to 2000. Scandinavian Journal of Psychology, 43, 335-351, 2002.
ROUDINESCO, E. A família em desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
PATTERSON, C. J. (1992) Children of lesbian and gay parents. In Child Development, 63, 1025-1042.
UZIEL, A. P.; GROSSI, M.; MELLO, L. (orgs.) (2006) Conjugalidades, parentalidades e identidades lésbicas, gays e travestis. Rio de Janeiro: Garamond.

 Luiz Celso C. Toledo (Membro filiado SBPRP, Doutor pelo Departamento de Psicologia Social da USP/SP) e Vera Silvia F. Paiva (Doutora e Livre Docente do Instituto de Psicologia do Departamento de Psicologia Social da USP/SP).

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

MOVIMENTOS EM DIREÇÃO A CANTAR, COMPOR E INTERPRETAR

Este trabalho foi apresentado em reunião científica da SBPRP em setembro de 2013 e depois enviado para o congresso da FEPAL de 2014. Nele faço um paralelo entre o fazer do músico e o do psicanalista apoiando-me em estudos na área das Ciências da Performance, com o qual tive contato por uma parceria com a Faculdade de Música da USP-Ribeirão Preto. Faço uma discussão sobre o conhecido ‘medo do palco’, enfocando as emoções expressas ou despertadas no cantor lírico no momento de suas apresentações, e os possíveis significados da performance musical para estes profissionais. Parto disso para elaborar alguns modelos que podem ser úteis para se pensar o trabalho analítico.
Apresento à seguir, um pequeno apanhado da importância dos sons na evolução biológica e cultural  do ser humano, abordando a questão da Cesura (Bion).
A segunda parte do trabalho se concentra em aspectos mais clínicos, abordando a singularidade do sonhar do analista durantes as sessões de análise, e relato vinhetas clínicas em que o fenômeno da musicalidade/sonoridade surge nas sessões, através de lembranças de músicas populares brasileiras. Descrevo manifestações de ‘sonhos auditivos’ durantes os atendimentos de meus analisandos, relacionado-as à possíveis captações de aspectos da mente embrionária em analisando e analista durante estes encontros. Com base nestas experiências clínicas apresento algumas conjeturas sobre a implicação do universo sonoro na formação do pensar.
Fica claro, nesta tentativa de aproximação com a pesquisa musical, a importância para a Psicanálise, deste diálogo com as diversas manifestações artísticas.

Para quem gostou do tema, temos a seguir sugestões de leitura:

Wisnik, J. M., (1989). O Som e o Sentido – Uma Outra História das Músicas. Companhia das Letras, São Paulo, 1999.
Patel, D. A., (2009).Music and the brain: three links to language. The Oxford Handbook of Music Psychology, edited by Susan Hallan, Ian Cross and Michael Thaut. Oxford University Press, 2009.
Bion, W.R. (1981). Cesura. Revista Brasileira de Psicanálise, Vol XV nº2, 1981.

Beatriz Troncon Busatto
Membro efetivo da SBPRP

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Transpondo fronteiras em Psicanálise

No início do mês de setembro fui ao Congresso da FEPAL (Federação Latino Americana de Psicanálise) para participar da reunião de Presidentes das Sociedades de Psicanálise constituintes daquela instituição. A FEPAL é uma Federação que reúne as Sociedades de Psicanálise da América Latina que, por sua vez, são filiadas à IPA (International Psychoanalytical Association). A experiência foi excelente, uma vez que tive oportunidade de entrar em contato com temas administrativos referentes não a uma sociedade em particular, mas ao conjunto delas na América Latina.
Um dos temas mais interessantes, entre tantos discutidos, foi sobre a abertura de novas fronteiras, um projeto para levar a Psicanálise a países da América Latina em que não existem psicanalistas. Observei um clima muito favorável de expansão, que sinaliza a força e a consistência da instituição psicanalítica. Juntamente com a ideia de levar a Psicanálise a lugares em que ela ainda não está instituída, havia um cuidado para que tudo fosse feito sem perda da profundidade que caracteriza a teoria e a prática psicanalíticas. A experiência boa é justamente a de se sentir pertencendo a um grupo de profissionais comprometidos com a Psicanálise, com o desenvolvimento de teoria e técnica, bem como com sua difusão com seriedade, entre os mais diversos países e culturas.
Fazer parte do Conselho Diretor da SBPRP é um privilégio, uma vez que a Instituição é associada a outras internacionais (FEPAL e IPA), o que dá um respaldo considerável para os dirigentes da Sociedade e nos torna ainda mais comprometidos com a prática de uma Psicanálise consistente, em constante ampliação e, ao mesmo tempo, fortalece nosso empenho – que já acontece há muitos anos – em favorecer cada vez mais o contato com a comunidade que nos cerca. Assim como a FEPAL, que procura transpor fronteiras, levando a Psicanálise para novos países latino americanos, nós da SBPRP também fazemos um trabalho de ir além, organizando projetos como Terças na Sociedade (dirigido a estudantes de Psicologia e residentes de psiquiatria), Psicanálise na Universidade, Cinema e Psicanálise (para toda a comunidade), Psicanálise e Educação (destinado a educadores), etc. Estamos também atentos à expansão de nossas fronteiras.

Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis
Presidente da SBPRP

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