segunda-feira, 24 de agosto de 2015



Semeando a Psicanálise/ Franca
No IX Ciclo de Estudos do Curso de Psicologia da Uni-FACEF.
Em 26/08/2015.

Psicanálise e Arte: as transformações do sofrer.

Ana Regina Morandini Caldeira

Penso que a arte deva ter algum parentesco com a psicanálise, pois ambas têm a generosidade de oferecer-nos chances de aproximação do que é impensável, também traduzem o indizível, e concedem a possibilidade de suportarmos o que é doloroso.

Neste enfoque de pareamento entre Psicanálise e Arte, faço a correlação de que a verdade que um artista busca é principalmente sua verdade interior, assim como também, uma das funções de grande importância da psicanálise seria o fato de colocar o indivíduo em contato com ele próprio.

No transcorrer do Seminário Teórico, tento estabelecer uma ligação entre parte da teoria de Bion, que diz respeito às Transformações, e alguns quadros de Frida Kahlo.

Ressalto os três tipos de emoção ou vínculos básicos: L, H e K, no sentido de que há sempre uma articulação entre todo processo de transformação com estes vínculos, notadamente o vínculo do conhecimento. Sendo que este vínculo não diz respeito ao saber intelectual, mas sim à busca das verdades.

Com referência à transformação em K, como algo relativo a um conhecimento sobre si mesmo, a questão se dá no sentido se este conhecimento pode se tornar uma sabedoria, isto é, se pode ser incorporado à vida como elemento transformador.
Podemos conjecturar que um dos significativos sentidos da psicanálise, seria o de ajudar o analisando a transformar sua relação com a própria mente inconsciente, constituindo o advento de um novo sujeito. Gerando novos significados emocionais e permitindo que ele possa se aproximar de si próprio, constituindo-se novas formas de relação com ele mesmo e com o mundo.

Ao longo do processo analítico, cada um de nós busca pela possibilidade de encontro com a própria verdade. Para Bion, pensar é sonhar.

Faço a correlação entre a arte e a psicanálise, no sentido do quanto podemos fazer uso delas para nos depararmos com nossa essência.

A partir de uma seleção feita com 10 quadros de Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón - expostos durante a apresentação do Seminário - observamos que ela pintava em suas telas um autorretrato intimo, revelando suas dores físicas e psicológicas, numa tentativa de entrar em contato com seus elementos internos. Disse assim: “nunca pintei sonhos, pintei minha própria realidade”.

Nesta seleção, há uma referência aos traumas vividos por Frida, ao longo de sua existência. Iniciados principalmente com a falha da mãe como um escudo protetor, seguido pela poliomielite, depois pelo gravíssimo acidente no bonde, sua vida turbulenta com Diego, os impedimentos de levar adiante suas gestações, e a dolorosa imobilização física nos anos finais de sua vida.

Sua vivência traumática encontrou condição interna de dar formas à situação de dor a partir da pintura, sendo capaz de resgatá-la da morte. Todo grande artista cria um mundo novo, pela percepção de que seu mundo interno possa estar estilhaçado e necessita ser recriado.

Escreveu em seu diário: “pés, para que os quero, se tenho asas para voar”. O que seria de Frida se não tivesse seu ofício, sua arte, seus quadros? Como será que conseguiria elaborar suas catástrofes?

Talvez possamos sonhar que o ser humano seja a única espécie que, ao longo de sua vida, vá construindo asas para voar além do real, do palpável e do objetivo.

A concessão de vida é também uma das funções da psicanálise! Através dela, temos o privilégio de construção do recurso para elaboração de nossos reveses, gerando renovação e vitalização interna. André Green diz que sua esperança, ao final da análise, seja de que seu analisando esteja apto para aproveitar um pouco mais a vida do que podia antes de procurar tratamento.

Que possamos usufruir da vida e do que ela nos concede, a partir dos recursos que a Psicanálise e a Arte nos oferecem!

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