quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Prezados colegas e amigos da SBPRP:

Finda 2016!, um ano muito trabalhoso para todos nós, seja como brasileiros de um país em contínuas e renovadas crises políticas, econômicas e sociais, seja como psicanalistas em nosso ofício cotidiano, o qual, por sua própria natureza, é inerentemente crucial, mas em tempos em que a realidade externa corrobora as mais trágicas fantasias do mundo interno, redobram os esforços do nosso ofício.

Há poucos dias, outra perda: foi-se o poeta Ferreira Gullar. Mas poetas, e quem sabe a gente um pouquinho também, podem permanecer um pouco mais. Ferreira nos deixou um poema, que tomo emprestado para homenagear a todos os membros e funcionários da nossa Sociedade:

Ano Novo 
  
Meia noite. Fim 
de um ano, início 
de outro. Olho o céu: 
nenhum indício.

Olho o céu: 
o abismo vence o 
olhar. O mesmo 
espantoso silêncio 
da Via-Láctea feito 
um ectoplasma 
sobre a minha cabeça: 
nada ali indica 
que um ano novo começa.

E não começa 
nem no céu nem no chão 
do planeta: 
começa no coração.

Começa como a esperança 
de vida melhor 
que entre os astros 
não se escuta 
nem se vê 
nem pode haver: 
que isso é coisa de homem 
esse bicho 
estelar 
que sonha 
(e luta)


Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1997.

Desejamos que a poesia, embalada pelos significados natalinos, possa renovar nossas Esperanças e Vitalidades! Neste ano complexo, vemos que elas permaneceram vivas em nosso meio, a SBPRP, e evidências não faltam: com muita paixão, quase todos nossos membros estão envolvidos trabalhando em inúmeras comissões, comprometidos com o futuro da nossa ciência e da nossa instituição. É bonito de se ver! Ganhamos até um evento internacional para realizarmos, o BION 2018, e uma nova identidade visual, que chega bem pertinho do Natal, como se fosse um presente de Papai Noel para todos nós. E em breve ganharemos um novo Site e um novo Boletim Interno, que serão lindos como a nova logo e úteis em nossa interação democrática. 

Dessa maneira, aproveitamos a oportunidade para mostrar a todos vocês um pouco do trabalho que temos feito e deixar aqui um presente de Natal. Esta é a nova logo da SBPRP, que será aplicada em todas nossas mídias em janeiro:



Esperamos que gostem! Está aqui também o link com as fotos da nossa festa de confraternização, realizada neste fim de ano: goo.gl/fPPcBF
 
Então, nossos votos para 2017 são pela continuidade dessa onda criativa de “sonho e luta”! Desejamos que o “bicho estelar homem”, nós, os membros da SBPRP, possamos expandir nosso “coração” significativo e fazer crescer o nosso quintal, a SBPRP.

Nossos sinceros agradecimentos a todos, e votos de que a experiência emocional do NATAL e do ANO NOVO em cada um, assim como em nossos familiares e amados, seja plena!

Um grande abraço, em meu nome e em nome de todo o Conselho Diretor da SBPRP!

Paulo de Moraes M. Ribeiro 
PRESIDENTE DA SBPRP

terça-feira, 27 de dezembro de 2016


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Após um ano repleto de realizações, a SBPRP deseja a todos vocês um ótimo Natal!


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

No último dia 4, tivemos a triste notícia de que José Ribamar Ferreira, bem mais conhecido por seu pseudônimo Ferreira Gullar, havia falecido. Aos 86 anos, carregava consigo uma história e tanto, repleta de poesias e reflexões inspiradoras. 
Imagem: divulgação
Fundador da revista A Ilha, a qual lançou o pós-modernismo no Maranhão, estado em que nasceu, Gullar ingressou no mundo da poesia para nunca mais sair. Mais tarde, participou do movimento de poesia concreta no Rio e se mostrou um poeta inovador, o que o levou a criar o neoconcretismo, movimento que ia contra o concretismo ortodoxo em busca de subjetividade e expressão. 

Mas nada parecia comportar a necessidade de Gullar, de fazer uma poesia livre de amarras. Por isso, aos poucos se afastou do grupo com o qual fundara o neoconcretismo e passou a envolver-se com o Centro Popular de Cultura (CPC) ainda no começo dos anos 60. O CPC era uma organização da União Nacional dos Estudantes (UNE), um grupo de intelectuais de esquerda, que tinha como objetivo criar e divulgar uma "arte popular revolucionária". Com a ditadura militar, o CPC se desfez e Gullar, militante do Partido Comunista Brasileiro, decidiu se exilar na União Soviética, no Chile e na Argentina. 

Em 1977, Gullar voltou ao Brasil e após o fim da ditadura ganhou diversos prêmios, dentre eles o Jabuti em 2011 com o livro de poesia Em alguma parte alguma.

Em homenagem a este grande poeta, Ana Márcia Vasconcelos de Paula Rodrigues, membro associado da SBPRP e atual diretora administrativa da Sociedade, escreveu o seguinte artigo:


Para homenagear Ferreira Gullar, face à sua morte, escolho duas poesias extraídas do livro Barulhos (1980-1987), que, na verdade, ressoam como finas melodias em sintonia com as verdades humanas mais íntimas. 

A primeira, Despedida, oportunamente nos oferece vitalidade imaginativa para anunciar o momento da cesura da morte, que somente pode ser concebida enquanto o poeta está ferozmente ligado à vida. 

DESPEDIDA

Eu deixarei o mundo com fúria
Não importa o que aparentemente aconteça,
Se docemente me retiro.

De fato
Nesse momento
Estarão de mim se arrebentando
Raízes tão fundas
Quanto estes céus brasileiros.

Num alarido de gente e ventania
Olhos que amei
Rostos amigos tardes e verões vividos
Estarão gritando a meus ouvidos
Para que eu fique
Para que eu fique.

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.

A segunda poesia é uma declaração de amor ao menino-homem com o psiquismo essencial que o define por Detrás do rosto, mas que não pode jamais existir senão de forma encorpada. O poeta canta a beleza do amor e da intimidade através da unidade corpo-mente e de um ato amoroso, poucas vezes descrito com tanta ternura. Assim opõe-se à cisão corpo-mente, tantas vezes proclamada.

DETRÁS DO ROSTO

Acho que mais me imagino
Do que sou
Ou o que sou não cabe
No que consigo ser
E apenas arde
Detrás desta máscara morena
Que já foi rosto de menino.

Conduzo
Sob minha pele
Uma fogueira de um metro e setenta de altura.

Não quero assustar ninguém.
Mas se todos escondem no sorriso
Na palavra medida
Devo dizer
Que o poeta Gullar é uma criança
Que não consegue morrer
E que pode
A qualquer momento
Desintegrar-se em soluços.

Você vai rir se lhe disser
Que estou cheio de flor e passarinho
Que nada
Do que amei na vida se acabou
E mal consigo andar
Tanto isso pesa.

Pode você calcular quantas toneladas de luz
Comporta
Um simples roçar de mãos?
Ou o doce penetrar
Na mulher amorosa?

Só disponho de meu corpo
Para operar o milagre
Esse milagre
Que a vida traz
E zás
Dissipa às gargalhadas.

Obrigada Poeta por sua generosa sensibilidade a nos alertar que "a vida é pouca e louca, mas nada há senão ela."

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