sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Poderosa Afrodite (Mighty Aphrodite, 1995) Direção de Woody Allen. Elenco: Woody Allen, Mira Sorvino, Helena Bonham Carter.
O cronista esportivo Lenny Weinrib (Woody Allen) é pressionado pela esposa – a galerista de arte Amanda (Helena Bonham Carter) – a adotar um bebê.  O garoto vai crescendo e demonstrando cada vez mais inteligência, o que chama atenção do seu pai. Decidido a descobrir a identidade da mãe biológica de seu filho, Lenny decide buscar informações no centro de adoção. Depois de algumas pesquisas, ele encontra a mulher que tanto buscava. Sua surpresa será grande ao conhecer Linda Ash (Mira Sorvino), uma prostituta nova-iorquina que é também conhecida pelo pseudônimo de Judy Cum na indústria pornográfica. Lenny finge ser um cliente para ajudar Linda a abandonar a vida fácil e se tornar a mãe que seu filho poderá conhecer futuramente. “Poderosa Afrodite” (Mighty Aphrodite) tem, como principal encantamento, o roteiro brilhantemente escrito, como de praxe, pelo próprio Woody Allen, que irá amarrar todos os acontecimentos através dos narradores gregos.
Em novembro, no Instituto Figueiredo Ferraz, uma de nossas convidadas a comentar este filme será Marisa Gianecchini. Ela nos presenteia com o interessante estímulo para aquecer nossa reflexão:

Entre Moralizacão e Sensibilização

O filme A Poderosa Afrodite, de Woody Allen, convoca o espectador para dois espaços em que se desenvolve a narrativa ficcional: os Estados Unidos e a vida pulsando na pós-modernidade e uma Itália do tempo da Magna Grécia e da cultura grega naquele lugar. Nesse jogo entre presente e passado, o teatro antigo se reinventa, com atores vestindo máscaras, à maneira do espetáculo na Ática clássica. Em plena Itália (Agrigento ou Siracusa), um Coro, sentencioso, lê os mitos, enquanto um casal norte-americano vive seus conflitos. O filme quebra os limites entre os dois espaços e acorda nossos sentidos para entendermos que a Moralização, com que o Coro tenta intervir, não dá conta do humano e suas paixões.

Com certeza, será uma ótima conversa!! Até lá!

Marisa Giannecchini

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Para adquirir um exemplar do nosso último número, entre em contato através do e-mail sbprp.biblioteca@gmail.com ou diretamente em nosso site:
http://www.sbprp.org.br/sbprp/berggasse_assine.asp

Número avulso: R$ 50,00

Assinatura anual (2 exemplares): R$ 110,00 à vista (ou em 2x)

Formas de pagamento:

- Boleto bancário
- Cheque nominal
- Depósito bancário


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Berggasse 19 – Vol. V, Nº 1 – “Cinema e Psicanálise”
Resumos dos Artigos

6.      A segunda chance de Stella
Comentários sobre o filme Stella, de Sylvie Verheyde
Izelinda Garcia de Barros, SBPSP
Resumo: Nos comentários sobre o filme Stella (2008), procuro destacar, em especial, as possibilidades de expansão psíquica contida na turbulência emocional da adolescência. A trama gira em torno das vivências transformadoras que ocorreram com Stella quando, aos 11 anos, muda de escola ao iniciar o ginásio, e lá descobre, através de uma colega muito especial, o valor da amizade e o gosto pela música e pela leitura.

7.      Melanie Klein vai ao cinema
Péricles Pinheiro Machado Jr, SBPSP
Belinda Piltcher Haber Mandelbaum, USP/SP

Resumo: Por volta de 1941, Melanie Klein redigiu um esboço de interpretação do filme Cidadão Kane, de Orson Welles, lançado nesse mesmo ano. “Notes on Citizen Kane” é mantido sob a cura do Melanie Klein Trust, em Londres, e somente em 1998 foi publicado em uma coletânea de ensaios sobre o pensamento kleiniano. O presente artigo propõe uma análise crítica do texto de Klein, apoiando-se nas contribuições de Laura Mulvey para discutir elementos estilísticos e, em certa medida, metodológicos que caracterizam a abordagem kleiniana de análise do filme. A noção de fantasia inconsciente – elemento central do pensamento kleiniano – é discutida à luz das elaborações teóricas de Hanna Segal sobre a experiência estética propiciada pelas artes e aprofundada com as contribuições de Graham Clarke e Michael O’Pray sobre a experiência do psicanalista como espectador no cinema. 

8.      Lennon e Macabéa: um comentário sobre A hora da estrela
Luiz Celso Castro de Toledo, SBPRP
Resumo: Este trabalho é um comentário sobre o filme A hora da estrelauma adaptação da obra de Clarice Lispector. A partir da leitura do texto original e de sua adaptação cinematográfica, de uma canção composta por John Lennon e de reflexões a respeito das relações entre a obra e a vida da autora, me dediquei a abordar as temáticas do desamparo e da finitude.

9.      Dor e Paixão: um passeio pela vida e obra de Frida Kahlo
Ana Regina Morandini Caldeira, SBPRP
Resumo: A autora visa a fazer um trânsito pela vida e obra de Frida Kahlo, num caminhar desde o nascimento até sua morte. Sublinha os sofrimentos, traumas e ausências pelas quais viveu e constituiu seu funcionamento mental. Ressalta como fez uso da arte para elaboração de suas dores psíquicas. Neste trabalho, há uma tentativa de alinhavo entre estes vários aspectos, para a integração entre elementos contidos na obra cinematográfica Frida, em sua biografia, e nas peças artísticas que produziu, tendo como referencial o olhar que a psicanálise pode revelar.

10.      As baleias de agosto - Entre a melancolia e o luto, o sonho
Cybelli Morello Labate, SBPRP
Resumo: Partindo do enredo do filme As baleias de agosto e da relação entre as personagens, a autora discute questões referentes à passagem do tempo, ao envelhecimento e à transitoriedade da vida, tomando como base as teorias psicanalíticas sobre luto, melancolia e aprender com a experiência que iluminam a possibilidade de trânsito entre diferentes estados mentais.

11.      Uma articulação entre Psicanálise e Cinema: o caso Žižek
Luiz Moreno Guimarães, USP/SP
Thiago Emanuel Luzzi, USP/SP
Resumo: Pretende-se, através da análise do filme O guia perverso da ideologia, de Slavoj Žižek, evidenciar a forma como este autor concebe (i) a montagem fantasmática da ideologia, (ii) a maneira singular como ela ganha expressão em algumas propagandas e mercadorias e (iii) um possível atravessamento desse fantasma. O argumento principal do texto é que o filme em questão, para além de uma mera ilustração de teorias psicanalíticas, permite trazer à tona a singularidade da crítica psicanaliticamente orientada de Žižek, isto é, o modo como esse autor propõe ocupar uma determinada posição de análise e de crítica que possibilita incidir na ideologia.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Berggasse 19 – Vol. V, Nº 1 – “Cinema e Psicanálise”
Resumos dos Artigos

1.      O piano: uma proposta de compreensão psicanalítica
Anette Blaya Luz, SPPA
Resumo: O texto é uma reflexão a respeito do filme O piano enfatizando a íntima relação que existe entre estas duas artes: fazer Cinema e fazer Psicanálise. Aborda aspectos sociológicos da posição da mulher na sociedade retratada no cenário da época deste filme. Propõe um exercício de compreensão psicanalítica das diferentes conflitivas que atormentam os três principais personagens da história através dos fundamentos teóricos das obras de D.W.Winnicott e W. Bion.

2.      O que parece, quando aparece? Psicanálise e Cinema em foco
Silvana Rea – SBPSP/USP
Resumo: A partir da filmografia do cineasta Orson Welles, a autora traça relações entre a linguagem cinematográfica e a situação transferencial na clínica psicanalítica, em seus aspectos de ilusão e de prestidigitação.

3.      Gravidade: a impactante trajetória de renascimento de uma mulher à deriva no espaço e a ameaça de aniquilamento que a acompanha
Nara Amália Caron, SPPA
Rita Sobreira Lopes, Porto Alegre, UFRGS
Resumo: O filme Gravidade é uma ficção que ajuda a criar um modelo da experiência do nascimento, nesse lugar de difícil acesso pela linguagem verbal e memória. Para Bick (1986), ao nascer, o bebê está na posição de um astronauta que foi enviado ao espaço sem a vestimenta adequada. Nesta condição, está sujeito a angústias catastróficas, equivalentes às agonias impensáveis descritas por Winnicott (1968/1988): medo de cair para sempre, despedaçar-se, perder conexão com o corpo, isolamento completo sem meios de comunicação. Em sua primeira missão espacial, Ryan é acompanhada por um astronauta veterano, Matt Kowalski, que está no comando da nave espacial, em sua última missão. A nave é quase destruída após colidir com lixo espacial, deixando ambos à deriva, dependendo um do outro e na total escuridão – como a mãe com o seu bebê no trabalho de parto. É uma metáfora do nascimento e renascimento.

4.      Aspectos internos assustadores
Comentários sobre o filme Dogville, de Lars Von Trier
Suad Haddad de Andrade, SBPRP

Resumo: O filme Dogville fala de nossa violência interna e como ela comparece nos grupos sociais. Grace é uma fugitiva que é acolhida em uma pequena e pacata cidade, mesmo contra a vontade da maioria de seus moradores. Sem se darem conta, eles vão se revelando na relação com ela. No final, quem revela uma violência assustadora é ela, que, com a ajuda do pai, um gângster, destrói a cidade.

5.      Coisas que perdemos pelo caminho: a reconstrução do mundo interno a partir de experiências de luto e melancolia
Silvana Maria Bonini Vassimon, SBPRP
Resumo: A fatalidade invade sem aviso e sem prerrogativas. A vida de uma família é transtornada pela perda do pai e é no encontro do luto de sua esposa, com a profunda melancolia de um amigo drogadicto, que vai ser buscado e recuperado o interesse libidinal que conjuga as pessoas, que as conecta em interesses e cuidados e faz despertar a esperança. É nessa trágica passagem da vida que Audrey e Jerry se encontram e vão fabricar, em desesperador esforço, o interesse amoroso pelo “outro”, como fonte de elaboração pelas perdas, fonte de luta para o resgate do que restou dos “incêndios”, e fonte de esperança para continuar a vida.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

“Terças na Sociedade”
O próximo encontro acontecerá no dia 11/11. Às 20h, será realizada a palestra do Semeando sobre o tema "Para além da clínica: contribuições da Psicanálise em outros campos de atuação”, com apresentação de Andréa Ciciarelli Pereira Lima, Mônica B. S. Araújo, Patricia Rodella de Andrade Tittoto e Sandra Luiza Nunes Caseiro e às 21h o Clinicando com Guiomar Papa de Morais para um grupo de alunos da UNAERP.
No mês de novembro teremos nosso último “Terças na Sociedade” do ano de 2014. Durante todo o ano foram 8 encontros onde diversos itens relevantes, tanto do ponto de vista de um embasamento teórico, como também da prática do profissional foram apresentados de maneira acessível e direta, visando implementar a formação do profissional e despertar o interesse por essa tão instigante área, que é a Psicanálise.
Nesse nosso último encontro, o tema abordado será a contribuição da Psicanálise em outros campos de atuação que não o da clínica. A apresentação ficará a cargo de um grupo de psicanalistas da SBPRP (Andréa Ciciarelli Pereira Lima, Mônica B. S. Araújo, Patricia Rodella de Andrade Tittoto e Sandra Luiza Nunes Caseiro) que realizam um trabalho junto à comunidade e se dispuseram a compartilhar conosco suas experiências. A Psicanalista Patrícia Rodella Tittoto, membro do PECC e uma das palestrantes do nosso próximo encontro, assim nos esclarece a função e a relevância desse trabalho não apenas para a comunidade como também para os profissionais que participam: “Os psicanalistas tem buscado aprender “sobre” e “a partir” de outras áreas do conhecimento, buscando enveredar-se pela Literatura, Música, Teatro, Artes Plásticas, Arquitetura, Filosofia, Mitologia, Sociologia... Assim, a aproximação e a interlocução com as mais diversas experiências comunitárias tem enriquecido o desenvolvimento de sua capacidade de  sonhar e criar, abrindo novas formas de entendimento ao seu viver a Psicanálise”.
Após estas inspiradas palavras, só podemos desejar a todos que venham participar, se inspirar e se permitir sonhar e criar.
Para o ano que vem estamos preparando uma programação com temas bastante variados e com certeza, de grande interesse a todos.

As inscrições nas palestras são gratuitas através do email sbprp.sap@gmail.com
VAGAS LIMITADAS

SBPRP
Rua Ércoli Verri, 230 - Jardim Ana Maria
Ribeirão Preto - CEP- 14026-200
(16) 3623-7585

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

  Mulheres Perfeitas é um filme de ficção científica americano de 2004. Foi dirigido por Frank Oz, com roteiro de Paul Rudnick e estrelado por Nicole Kidman, Matthew Broderick, Bette Midler, Christopher Walken, Faith Hill e Glenn Close, baseado no livro de Ira Levin "Stepford Wives" escrito em 1972.
A sátira apresentada neste remake do filme original de 1975, "Stepford Wives", quando os EUA viviam um momento áureo do feminismo, nos traz questões muito atuais e atemporais porque fazem parte do psiquismo humano desde a sua origem. O que é o machismo? E o feminismo? Qual a função destes conceitos na sociedade ou na família?
Mesmo considerando sua relatividade, será que existe algo perfeito? Ou será que este é um conceito tão variável que impede sua existência? Será possível atingir a perfeição ou isso exigiria um esforço tão grande que causaria um sofrimento que anularia a perfeição do perfeito? A perfeição vale a pena?

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Editorial

“Assim como em todas as formas de arte, quando estudamos um filme, estudamos a nós mesmos” (Gabbard, 1997, p. 433).

         Em 1895, a publicação de Estudos sobre a histeria, por Freud e Breuer, dava início à nova ciência da Psicanálise. No mesmo ano, os irmãos Lumière patentearam e demonstraram o cinematógrafo com a exibição de Chegada de um trem à estação, inaugurando aquela que, em 1912, seria descrita pelo intelectual italiano Riccioto Canudo como a sétima arte, ou, a arte-síntese de todas as outras: o Cinema. Não demorou muito para que essas duas disciplinas, que hoje ocupam um lugar central na cultura, se aproximassem e estabelecessem uma relação de afinidade que perpassaria todo o século XX, chegando à contemporaneidade numa interlocução que cada vez mais rende contribuições a ambas.  
            É grande o número de publicações, entre livros e revistas especializadas, que abordam os diversos aspectos da relação entre a Psicanálise e o Cinema por pensadores de vários campos da cultura, como o filósofo Walter Benjamin e o historiador Román Gubern, para citar dois dos mais produtivos no assunto. Entre os autores da Psicanálise, também hoje encontramos uma gama de ensaios, artigos e obras em que as aproximações com o Cinema, seja em relação à sua equivalência morfológica, seja pela leitura de filmes através da óptica psicanalítica, além de outras abordagens, vêm despertando o interesse do público de maneira significativa.
            Acompanhamos ainda o crescente espaço que esse diálogo interdisciplinar tem ocupado em jornadas e congressos de Psicanálise, a exemplo do recente Congresso da Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL), realizado em setembro, em Buenos Aires, que contemplou em seu Programa Científico o I Encontro Latinoamericano de Cinema e Psicanálise, organizado em parceria de sua Comissão de Comunidade e Cultura e a Fundación Universidad del Cine (FUC). Através de quatro oficinas simultâneas, integradas por psicanalistas e destacados críticos e cineastas convidados, foram discutidos temas instigantes como “Poder e violência na cena”, “Os tempos da vida”, “Identidade, criação, personagens” e “Subjetividade e Cultura”.    
A edição da Berggasse 19 que ora apresentamos, inteiramente dedicada ao tema “Cinema & Psicanálise”, visa não só à participação nesse contexto de interação entre as duas áreas, mas principalmente a homenagear os 15 anos do C&P, atividade promovida pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto que, desde seu início, arrebata o interesse da comunidade ribeirão-pretana e hoje conta com vários projetos espalhados pela cidade e, atravessando as fronteiras, alcançou as vizinhas cidades de Franca, Jaboticabal e São Carlos. Uma forma, também, de agraciar nosso público cativo com esta produção escrita, cuja participação efetiva nos fomenta o rico trabalho de apresentar o “modo psicanalítico de pensar” através de filmes, bem como nossa capacidade onírica para a melhor apreensão daquilo que observamos na clínica.
            Sabendo que atividades como esta atualmente acontecem em muitas outras instituições psicanalíticas, estendemos o convite para o envio de artigos a todos os colegas, membros das Sociedades e Grupos de Estudos componentes da Federação Brasileira de Psicanálise, e a resposta positiva muito nos alegrou: recebemos inúmeros trabalhos, dos quais, com a participação do nosso corpo de pareceristas, selecionamos 11 para esta edição e criamos a sessão “Cinema & Psicanálise”, onde, a partir do próximo número, continuaremos a publicar autores interessados no tema.
            Agradecemos aos autores que, com seus textos aqui publicados, certamente apresentam discussões estimulantes a analistas e cinéfilos: Anette Blaya Luz, Silvana Rea, Nara Amália Caron & Rita Sobreira Lopes, Suad Haddad de Andrade, Silvana Vassimon, Izelinda Garcia de Barros, Péricles Pinheiro Machado Jr. & Belinda Piltcher Haber Mandelbaum, Luiz Celso de Castro Toledo, Ana Regina Morandini Caldeira, Cybelli Morello Labatte, e Luiz Moreno Guimarães & Thiago Emanuel Luzzi.
            Na sessão Resenha, apresentamos os ricos comentários de Luciano Bonfante sobre o livro Lanterna Mágica – autobiografia de Ingmar Bergman.
             Por fim, não deixem de apreciar a entrevista com Leopold Nosek, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e diretor executivo da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC) que, em conversa bastante interessante com a coeditora da Berggasse 19, Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis, fala sobre arte, Cinema, Psicanálise e Cinema & Psicanálise.
            A todos, uma boa leitura!

Rosângela Faria
Editora

                     
Referência
Gabbard, G. O. (1997). The psychoanalyst at the movies. The International Journal of Psychoanalysis.  Vol. 78 (p. 429-434).





terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ao terminar de assistir ao filme Vitus, do diretor suíço Fredi M. Murer, me deixei ficar enlevada pelos sonhos e altos voos que este filme desperta, ao mesmo tempo em que fiquei com perguntas inquietantes: quantos dos meus sonhos consegui realizar? Dos que perdi pelo caminho, quais obstáculos encontrei que me desviaram deles? Porém a questão central a que ele nos conduz me parece ser sobre a dificuldade que encontramos para realizar sonhos que nos levem em direção a nós mesmos. Em outras palavras, para conseguirmos ser nós próprios diante de tantas convenções que o “establishment” impõe, necessitamos ousar existir com nossas diferenças. Parece-me que Murer nos propõe reflexões sobre como poder escolher maneira própria de existir e mesmo assim permanecer em sintonia com o grupo social, apesar de nascermos com condições para ser e pensar diferentes da maioria.
Murer se declara um homem deslumbrado com a vida e diz que adiou em mais de 20 anos a realização deste roteiro e do filme, pois acreditou que era necessário estar mais velho para consegui-lo. Nem sempre mais idade significa maior sabedoria, mas no caso dele, por este filme, isto me parece complementar.
 O filme foca o período entre infância e início da adolescência de Vitus, período que é muito especial para qualquer um de nós, já que “é onde tudo pode acontecer: podemos ser um da Vinci, um bombeiro, um caubói, tudo é possível”, diz Murer.  De fato, nossos sonhos nesta fase de nossas vidas nos levam a construir futuros mesmo que improváveis, ilusórios, enquanto testamos nossas habilidades e descobrimos o que é possível de fato. Sonhos podem ser abortados pela ausência de continência para eles do nosso entorno, o que pode gerar falta de confiança em nós para leva-los adiante pela descrença em nossa capacidade própria. Não é o que acontece com Vitus, criança que se descobre pianista antes dos cinco anos de idade e seu virtuosismo somado à sua facilidade para com os estudos, o faz aos 13 anos estar apto para cursar uma faculdade.
No entanto sua vida emocional é bastante pobre ao lado do pai, que passa seu tempo trabalhando, preocupado com a ascensão social e econômica, e da mãe que se torna rigorosa sentinela do estudo de piano de seu filho.  É em seu avô que Vitus descobre um companheiro para uma vida mais criativa e cheia de brincadeiras, ao mesmo tempo em que nesta relação pode revelar-se verdadeiramente, compartilhar suas emoções enquanto experimenta existir.
Apesar de desconsiderado por professores e colegas de escola, rejeitado por sua inteligência que suscita sempre muita inveja, Vitus ama a música com todas as suas forças. No entanto lhe é difícil conter suas próprias emoções e decide fingir que perdeu sua genialidade e se “estupidifica” como se ao tornar-se mais “normal” pudesse sentir-se mais aceito e amado pelos que o rodeiam. Desta maneira, as pressões exercidas sobre ele, principalmente da sua mãe, diminuem, e ele pode fazer escolhas próprias. Apenas seu avô compartilha de seu segredo e é com ele de parceiro que este menino genial consegue mostrar quanto se pode aprender com cada criança que está ao nosso lado. Nem sempre ter mais idade é sinal de que se sabe mais e desta forma Vitus inverte a situação tornando-se ele quem oferece continente a todos.
Wilfred Bion, psicanalista contemporâneo, usando como sinônimos os termos gênio e místico, diz que entre o místico e o “Establishment” há uma relação problemática, que se repete durante a história. De fato, se procurarmos por exemplo entre músicos, ou pensadores, veremos quanto eles foram perseguidos por revelarem o novo, o diferente, com sua genialidade. Paganini, compositor e violinista extraordinário, era chamado de “Violinista do diabo”, pois tocava de maneira diferente, utilizando apenas quatro cordas do violino, ou para chocar, às vezes apenas com uma. Seus dedos muito longos e flexíveis dada uma doença nervosa que possuía, o levava a tocar de maneira notável e ainda não vista até então.
Penso podermos associar estas ideias tão rígidas e a obstrução sobre o novo, ou o diferente, aos resquícios deste estranhamento que ainda hoje persistem. Vitus pode ser tomado qual um representante de nosso incômodo frente àquele que de uma forma ou de outra se mostra genial em sua diferença. Lembro Carlos Drummond de Andrade:  parece-me que “quando Vitus nasceu, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: Vai Vitus! ser gauche na vida” ...E ele sonha, pensa, decide e vai.

Popular Posts

Loading...
Subscribe to RSS Feed Follow me on Twitter!