quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Prezados colegas e amigos da SBPRP:

Finda 2016!, um ano muito trabalhoso para todos nós, seja como brasileiros de um país em contínuas e renovadas crises políticas, econômicas e sociais, seja como psicanalistas em nosso ofício cotidiano, o qual, por sua própria natureza, é inerentemente crucial, mas em tempos em que a realidade externa corrobora as mais trágicas fantasias do mundo interno, redobram os esforços do nosso ofício.

Há poucos dias, outra perda: foi-se o poeta Ferreira Gullar. Mas poetas, e quem sabe a gente um pouquinho também, podem permanecer um pouco mais. Ferreira nos deixou um poema, que tomo emprestado para homenagear a todos os membros e funcionários da nossa Sociedade:

Ano Novo 
  
Meia noite. Fim 
de um ano, início 
de outro. Olho o céu: 
nenhum indício.

Olho o céu: 
o abismo vence o 
olhar. O mesmo 
espantoso silêncio 
da Via-Láctea feito 
um ectoplasma 
sobre a minha cabeça: 
nada ali indica 
que um ano novo começa.

E não começa 
nem no céu nem no chão 
do planeta: 
começa no coração.

Começa como a esperança 
de vida melhor 
que entre os astros 
não se escuta 
nem se vê 
nem pode haver: 
que isso é coisa de homem 
esse bicho 
estelar 
que sonha 
(e luta)


Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1997.

Desejamos que a poesia, embalada pelos significados natalinos, possa renovar nossas Esperanças e Vitalidades! Neste ano complexo, vemos que elas permaneceram vivas em nosso meio, a SBPRP, e evidências não faltam: com muita paixão, quase todos nossos membros estão envolvidos trabalhando em inúmeras comissões, comprometidos com o futuro da nossa ciência e da nossa instituição. É bonito de se ver! Ganhamos até um evento internacional para realizarmos, o BION 2018, e uma nova identidade visual, que chega bem pertinho do Natal, como se fosse um presente de Papai Noel para todos nós. E em breve ganharemos um novo Site e um novo Boletim Interno, que serão lindos como a nova logo e úteis em nossa interação democrática. 

Dessa maneira, aproveitamos a oportunidade para mostrar a todos vocês um pouco do trabalho que temos feito e deixar aqui um presente de Natal. Esta é a nova logo da SBPRP, que será aplicada em todas nossas mídias em janeiro:



Esperamos que gostem! Está aqui também o link com as fotos da nossa festa de confraternização, realizada neste fim de ano: goo.gl/fPPcBF
 
Então, nossos votos para 2017 são pela continuidade dessa onda criativa de “sonho e luta”! Desejamos que o “bicho estelar homem”, nós, os membros da SBPRP, possamos expandir nosso “coração” significativo e fazer crescer o nosso quintal, a SBPRP.

Nossos sinceros agradecimentos a todos, e votos de que a experiência emocional do NATAL e do ANO NOVO em cada um, assim como em nossos familiares e amados, seja plena!

Um grande abraço, em meu nome e em nome de todo o Conselho Diretor da SBPRP!

Paulo de Moraes M. Ribeiro 
PRESIDENTE DA SBPRP

terça-feira, 27 de dezembro de 2016


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Após um ano repleto de realizações, a SBPRP deseja a todos vocês um ótimo Natal!


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

No último dia 4, tivemos a triste notícia de que José Ribamar Ferreira, bem mais conhecido por seu pseudônimo Ferreira Gullar, havia falecido. Aos 86 anos, carregava consigo uma história e tanto, repleta de poesias e reflexões inspiradoras. 
Imagem: divulgação
Fundador da revista A Ilha, a qual lançou o pós-modernismo no Maranhão, estado em que nasceu, Gullar ingressou no mundo da poesia para nunca mais sair. Mais tarde, participou do movimento de poesia concreta no Rio e se mostrou um poeta inovador, o que o levou a criar o neoconcretismo, movimento que ia contra o concretismo ortodoxo em busca de subjetividade e expressão. 

Mas nada parecia comportar a necessidade de Gullar, de fazer uma poesia livre de amarras. Por isso, aos poucos se afastou do grupo com o qual fundara o neoconcretismo e passou a envolver-se com o Centro Popular de Cultura (CPC) ainda no começo dos anos 60. O CPC era uma organização da União Nacional dos Estudantes (UNE), um grupo de intelectuais de esquerda, que tinha como objetivo criar e divulgar uma "arte popular revolucionária". Com a ditadura militar, o CPC se desfez e Gullar, militante do Partido Comunista Brasileiro, decidiu se exilar na União Soviética, no Chile e na Argentina. 

Em 1977, Gullar voltou ao Brasil e após o fim da ditadura ganhou diversos prêmios, dentre eles o Jabuti em 2011 com o livro de poesia Em alguma parte alguma.

Em homenagem a este grande poeta, Ana Márcia Vasconcelos de Paula Rodrigues, membro associado da SBPRP e atual diretora administrativa da Sociedade, escreveu o seguinte artigo:


Para homenagear Ferreira Gullar, face à sua morte, escolho duas poesias extraídas do livro Barulhos (1980-1987), que, na verdade, ressoam como finas melodias em sintonia com as verdades humanas mais íntimas. 

A primeira, Despedida, oportunamente nos oferece vitalidade imaginativa para anunciar o momento da cesura da morte, que somente pode ser concebida enquanto o poeta está ferozmente ligado à vida. 

DESPEDIDA

Eu deixarei o mundo com fúria
Não importa o que aparentemente aconteça,
Se docemente me retiro.

De fato
Nesse momento
Estarão de mim se arrebentando
Raízes tão fundas
Quanto estes céus brasileiros.

Num alarido de gente e ventania
Olhos que amei
Rostos amigos tardes e verões vividos
Estarão gritando a meus ouvidos
Para que eu fique
Para que eu fique.

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.

A segunda poesia é uma declaração de amor ao menino-homem com o psiquismo essencial que o define por Detrás do rosto, mas que não pode jamais existir senão de forma encorpada. O poeta canta a beleza do amor e da intimidade através da unidade corpo-mente e de um ato amoroso, poucas vezes descrito com tanta ternura. Assim opõe-se à cisão corpo-mente, tantas vezes proclamada.

DETRÁS DO ROSTO

Acho que mais me imagino
Do que sou
Ou o que sou não cabe
No que consigo ser
E apenas arde
Detrás desta máscara morena
Que já foi rosto de menino.

Conduzo
Sob minha pele
Uma fogueira de um metro e setenta de altura.

Não quero assustar ninguém.
Mas se todos escondem no sorriso
Na palavra medida
Devo dizer
Que o poeta Gullar é uma criança
Que não consegue morrer
E que pode
A qualquer momento
Desintegrar-se em soluços.

Você vai rir se lhe disser
Que estou cheio de flor e passarinho
Que nada
Do que amei na vida se acabou
E mal consigo andar
Tanto isso pesa.

Pode você calcular quantas toneladas de luz
Comporta
Um simples roçar de mãos?
Ou o doce penetrar
Na mulher amorosa?

Só disponho de meu corpo
Para operar o milagre
Esse milagre
Que a vida traz
E zás
Dissipa às gargalhadas.

Obrigada Poeta por sua generosa sensibilidade a nos alertar que "a vida é pouca e louca, mas nada há senão ela."

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

EDITAL DE ABERTURA DE INSCRIÇÃO AO EXAME DE SELEÇÃO PARA FORMAÇÃO DE PSICANALISTAS DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DE RIBEIRÃO PRETO - SBPRP

A SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DE RIBEIRÃO PRETO, CNPJ 00259.760/0001-18, entidade componente da Associação Internacional de Psicanálise (IPA) e da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), vem comunicar aos interessados que as inscrições para o exame de seleção para ocuparem até 18 vagas à formação de psicanalistas pelo seu Instituto de Psicanálise estarão abertas do dia 16 de Janeiro de 2017 a 14 de Fevereiro de 2017.

A inscrição é facultada a médicos e psicólogos graduados há pelo menos 04 (quatro) anos. Casos excepcionais de profissionais de outras áreas serão analisados individualmente pela Comissão de Ensino da SBPRP.

Os documentos exigidos para a inscrição são os seguintes:

(16 cópias de cada documento)

1. “Curriculum Vitae” atualizado;

2. Autobiografia do candidato, especificando os motivos que o levaram a optar pela formação psicanalítica;

3. Xerox do comprovante de registro no Conselho Regional Profissional;

4. 03 (três) fotos 3x4 recentes;

5. Requerimento de inscrição (a ser fornecido pela Secretaria da SBPRP) devidamente assinado.

O exame de seleção é dividido em duas fases. A primeira delas, cujo resultado será divulgado até 10 de Abril de 2017, consiste na seleção dos inscritos por intermédio da análise dos currículos e autobiografias apresentados. Os aprovados passarão à segunda fase, que consiste em entrevista pessoal feita por uma Comissão de Seleção composta por 3 (três) membros da SBPRP, que deverá ser feita até 15 de Junho de 2017, com resultados divulgados até 10 de Agosto de 2017. Os aprovados classificados deverão manifestar interesse na ocupação de vaga, por escrito, junto à secretaria da SBPRP, até 20 de Agosto de 2017.

Taxas de Inscrição:

Primeira fase – R$ 600,00.

Segunda fase (somente para os aprovados na primeira fase) – R$ 1.100,00.

As inscrições deverão ser feitas na Secretaria da SBPRP, à Rua Ércole Verri, 230, nesta cidade, de segunda à sexta-feira, das 09:00 às 17:00 horas. Este Edital será divulgado no site da SBPRP (www.sbprp.org.br) e em jornal de grande circulação de Ribeirão Preto e região.

Ribeirão Preto, novembro de 2016.

Dr. Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro,

Presidente da SBPRP

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Este mês, completam-se 37 anos da morte do psicanalista Wilfred Bion (1897-1979). Em homenagem a ele, Fátima Cassis, membro associado da SBPRP, escreveu o artigo abaixo.

Aproveitamos a oportunidade para comunicar, com muito orgulho, que a Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto foi escolhida para sediar e organizar o evento internacional Bion 2018, o qual será realizado em julho de 2018 e reunirá pensadores e psicanalistas do mundo todo em Ribeirão Preto. Em breve, mais informações.
Imagem: reprodução
Wilfred R. Bion nasceu dia 8 de setembro de 1897 em Muttra, no Pengab, província indiana anexada à colônia inglesa em 1849. Como era costume cultural, aos 8 anos foi estudar na Grã-Bretanha, permanecendo na Public School até seu término. Aos 18 anos, alistou-se nas forças armadas britânicas em 1916, atuando na Primeira Grande Guerra, com distinção, atingindo a patente de capitão.

Após a guerra, seguiu para a Universidade de Oxford, licenciando-se em Letras. Tornara-se nesta época um jovem professor, envolto em proezas esportivas e militares e dono de uma vasta cultura, com conhecimentos profundos em história moderna, estudos avançados de linguística e das línguas grega e latina, além de ser leitor apaixonado dos clássicos de literatura, Shakespeare em especial. Foi nesta época que teve o primeiro contato com a psicanálise, através de um livro de Freud, trazido por um de seus amigos.

Ficou fascinado por suas ideias e profundamente estimulado a cursar medicina, concluindo o curso aos 33 anos de idade. Obteve medalha de ouro em cirurgia, mas foi a prática psiquiátrica, e depois a psicanálise iniciada na Tavistock Clinic, em Londres, que lhe encantou. Foi analisando de J. Rickmann e posteriormente, após a II Guerra, iniciou sua análise didática com Melanie Klein.

Produziu cinquenta títulos por um período de 40 anos, “reexaminando as coisas a partir de seus começos e descobriu um novo caminho para a psicanálise” (Bléandonu, 1990). Passou das teorias psicanalíticas para a teoria da observação, um incremento na atividade analítica, aumentando a chance de a pessoa “tornar-se mais ela mesma”. Sua obra tornou a psicanálise mais complexa, mas também mais humanista, dando destaque à pessoa do analista na tarefa de psicoanalisar. Segundo ele, “o analista vale não tanto pelo que sabe e diz, mas muito mais pelo que realmente é”.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A SBPRP apresenta:

Evento de lançamento da Revista Berggasse 19 Vol. VII, nº 1 
Dia: 03 de dezembro de 2016, sábado, às 10h30

Local: Anfiteatro da SBPRP

Palestra “O Erotismo em Merleau-Ponty”, com o Prof. Dr. Reinaldo Furlan

Este número apresenta artigos de palestrantes da IV Bienal de Psicanálise e Cultura “Psicanálise e Tecnologia Diálogos Possíveis” realizada durante os dias 19 à 21 de Maio de 2016


Seguem dois resumos dos artigos presentes:

1. Cultura no ambiente tecnológico - Reinaldo Furlan.

Resumo

O artigo se divide em três partes. Na primeira, procurei desdobrar algumas questões pertinentes aos termos do enunciado “cultura no ambiente tecnológico”, ou estabelecer um campo prévio de significados para a sua discussão. Na segunda parte, introduzo dois termos que me parecem necessários para essa discussão: o advento da modernidade e do capitalismo, para contextualizar, ainda que de forma breve, a situação atual de globalização com as novas tecnologias de informação e comunicação. Na terceira parte, destaco algumas questões que me parecem importantes para uma discussão mais específica do tema, privilegiando a questão do consumo nas sociedades modernas contemporâneas. Concluo procurando articular, através da noção de desejo, as principais noções desenvolvidas nas três partes. Ou seja, vida, tecnologia, desejo e mundo (primeira parte), modernidade, capitalismo e consumo (segunda parte), consumo, política e cultura (terceira parte). Em particular, destaco as noções de pulsão, desejo e sublimação, atreladas à noção de imagem presente no uso das novas tecnologias de informação e comunicação.

Palavras-chave: cultura; sociedade tecnológica; capitalismo cultural; desejo e mundo contemporâneo; novas tecnologias de informação e comunicação.

2. Ambientes digitais e imagens, uma presença virtual constante - Anette Blaya Luz.

Resumo
Reflexões sobre a influência das mídias digitais no processo de subjetivação do indivíduo, a repercussão disso nos relacionamentos humanos, na constituição da identidade e uso destas ferramentas digitais na clínica psicanalítica contemporânea.

Palavras–chave: mídias digitais, subjetivação, clínica psicanalítica contemporânea

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

No último dia 19, o Cinema e Psicanálise de Ribeirão Preto fechou o ano de 2016 em grande estilo. Dr. Miguel Marques, analista didata da SBPRP, apresentou o filme O Livro de Cabeceira (1996), de Petter Grennaway.
 
Cerca de 40 pessoas participaram do evento, o qual culminou em um debate produtivo acerca de interessantes pontos da trama. As atividades do C&P de Ribeirão Preto serão retomadas em março do ano que vem. Até lá!
 
Mesa de apresentação do último C&P de Ribeirão (Imagem: Luciana Mian)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Cinema e Psicanálise de Franca apresentou Relatos Selvagens (2014) neste último sábado, dia 19. A palestrante Dra. Ana Márcia Vasconcelos de Paula Rodrigues, psiquiatra-psicanalista e membro associado da SBPRP, comentou o filme:

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Para comemorar o aniversário de 8 anos do Cinema e Psicanálise de Franca, tivemos o prazer de assistir juntos ao ótimo filme argentino de 2014, Relatos Selvagens, que é uma produção de Pedro Almodovar a partir do brilhante roteiro do diretor Dámian Szifron. Esta parceria resultou em enorme sucesso de público e crítica e também em várias premiações.

Principais personagens de "Relatos Selvagens" (Imagem: divulgação)

A meu ver, este longa nos proporciona uma experiência libertadora de contato com nossa emocionalidade, através do acesso à identificação psíquica estabelecida com as estórias tragicômicas de seus protagonistas. O refinado senso de humor do diretor nos desarma do julgamento prévio e do preconceito com o fluxo das paixões retratadas em seis estórias independentes, mas interligadas na temática comum de vivências de extrema turbulência mental.

Ao vermos o filme, sentimos que não estamos sozinhos quando sofremos o impacto de emoções e pensamentos selvagens, em situações da vida que ultrapassam nossos limites.

Ao invés de suprimir/abolir tais emoções turbulentas, precisamos encontrar um canal de comunicação para as mesmas, pois estanca-las pela dor que nos provocam, equivale a bloquear fontes de vida psíquica. Se tivermos a liberdade de ver/conhecer a “fera” que naturalmente somos em áreas de turbulência emocional, alcançamos a capacidade real de estar e sentir-se vivo.

Afinal, a vida, por si só, não é um relato selvagem?

Assim nos conta o poeta Drummond em seu poema Fera:

“Às vezes o tigre em mim se demonstra cruel

Como é próprio da espécie.

Outras, cochila

Ou se enrosca em afago emoliente

Mas sempre tigre; disfarçado.”

A experiência de estarmos e nos sentirmos plenamente vivos no mundo pode tornar-se inteira somente quando nos abrimos para a “terrível e fascinante visão de nossa natureza humana”.

A psicanálise, desde Freud, sempre teve enorme interesse e respeito por tudo o que é arcaico e primitivo no homem, buscando conhecer os aspectos primários essenciais da mente, sem condená-los ou depreciá-los. Afinal, nada é mais perigoso para o animal humano do que se esquecer de sua real condição e querer se igualar aos deuses.

Se nossa vida mental impreterivelmente nasce a partir de emoções selvagens, somente irá desenvolver-se através de ciclos de experiências afetivas capazes de reconhecer o que há de construtivo e destrutivo em cada emoção, não havendo pureza quando se trata do humano. Obviamente, cada relação humana é predominantemente benigna ou maligna, dependendo de como os vínculos de paixão se constituem, como podemos ver nas estórias “demasiadamente humanas” do filme.

A dificuldade de se ter uma mente própria e consistente para sustentar-se perante os impactos da vida, pode estar ligada ao predomínio de ligações afetivas superficiais e incapazes de ativar áreas de intimidade psíquica. Assim como ocorre na estória do filme que mostra dois homens desconhecidos e visivelmente muito diferentes, competindo por superioridade narcísica em uma rodovia, o que faz com que aquilo que seria uma corriqueira briga de trânsito se transforme em questão de vida ou morte.

Sem dúvida, precisamos de relações íntimas a nos alimentar e assim desenvolvermos mente suficiente para pensar as paixões e fazer escolhas genuínas a serviço da vida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

No dia 3 de dezembro, às 10:30h, será realizado o lançamento da Revista Berggasse 19: Vol. VII - nº 1.

Local: Anfiteatro da SBPRP

Palestra “O Erotismo em Merleau-Ponty” com o Prof. Dr. Reinaldo Furlan, professor de filosofia no curso de Psicologia (graduação e pós-graduação) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – USP. 

As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas por meio do envio do nome completo ao e-mail sbprp.secretaria@gmail.com.

As vagas são limitadas. 



Os inquietantes estranhos estrangeiros

Dr. Alexandre Martins de Mello, editor da Revista Bergasse 19

“A história pessoal de Freud, o judeu errante da Galícia à Viena, em seguida Londres, passando por Paris, Roma e Nova York (para citar somente algumas etapas-chaves de sua provação cultural e política), condiciona essa preocupação de enfrentar a inquietação do outro enquanto mal-estar a partir de uma permanência da “outra cena” em nós. O meu mal-estar em viver com o outro – a minha estranheza, a sua estranheza – repousa numa lógica perturbada que regula esse feixe estranho de pulsão e de linguagem, de natureza e de símbolo que é o inconsciente, sempre já formado pelo outro. É por desatar a transferência – dinâmica maior da alteridade, do amor/ódio pelo outro, da estranheza constitutiva do nosso psiquismo – que, a partir do outro, eu me reconcilio com a minha própria alteridade-estranheza, que jogo com ela e vivo com ela. A psicanálise sente-se então como uma viagem na estraneidade do outro e de si mesma, em direção a uma ética de respeito pelo inconciliável. Como poderíamos tolerar o estrangeiro se não nos soubermos estrangeiros para nós mesmos? “ (Kristeva, Julia p. 190-191 [1]).

Propositalmente, lanço a citação de Julia Kristeva, do livro “Estrangeiros para nós mesmos”, para apresentar mais um exemplar da nossa Berggasse 19.

Neste número, temos três trabalhos de analistas de outros países, Giuseppe Civitarese, da Itália, Rui Aragão Oliveira e Paulo Alexandre Ferrajão, de Portugal e Leandro Stitzman, psicanalista argentino que visitou a SBPRP, em março de 2016 e também nos concedeu a entrevista desta edição. Ficamos muito honrados com a escolha dos colegas estrangeiros pela publicação de seus trabalhos conosco. A partir dos vértices trazidos por eles, já teríamos muito a estudar e pensar. Civitarese nos traz suas reflexões sobre a violência das emoções e sua estética, fundamentado no pensamento de Bion, com referências ao conceito de conflito estético de Meltzer. Aragão e Ferrajão nos oferecem uma revisão atualizada das teorias sobre trauma e abordam o trabalho analítico de uma paciente, para enfrentamento da perda de uma gravidez, elaboração da situação e a continuidade de sua vida reprodutiva, a partir de uma teoria das relações de objeto. Stitzman nos oferece suas ideias no artigo intitulado Framework, acaso e dom, em que propõe vértices fundamentais para observação do trabalho analítico. A entrevista desse autor brinda-nos com flashes de sua trajetória como psicanalista que ajudam a compreender e absorver o impacto de suas “ideias inquietas e travessas”.

No escopo de contemplar as atividades que aconteceram na nossa Sociedade, publicamos o artigo de um “estrangeiro”, filósofo, o Prof. Dr. Reinaldo Furlan da FFCLRP-USP, com seu trabalho apresentado na IV Bienal Psicanálise e Cultura, sobre cultura no ambiente tecnológico. Ainda vindo da Bienal, o trabalho de Anette Blaya Luz, da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, faz reflexões sobre o tema dos ambientes virtuais, enriquecendo nossa possibilidade para continuar as conversas e debates iniciados na IV Bienal.

Publicamos, também, os trabalhos de Liana Albernaz de Melo Bastos, de Suad H. Andrade e de Suely F. S. Delboni, expostos em uma mesa do XXV Congresso Brasileiro de Psicanálise, que trazem reflexões sobre a sedução, as quais emocionaram a plateia que assistiu às conferências em São Paulo. Ainda, temos o trabalho de Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro, com reflexões atuais a respeito do tema violência e corrupção na clínica contemporânea.

Na sessão Cinema e Psicanálise, temos o artigo intitulado “O Unheimlich em Jogo de Cena”, escrito pelo psicólogo Renato Tardivo, de São Paulo, na sessão Cinema e Psicanálise, em que tece uma rede de ideias, relacionando o filme de Eduardo Coutinho com o artigo de Freud “Unheimlich”, citado pelo autor como “O Inquietante”.

A interlocução entre a Psicanálise e outras áreas do conhecimento – “estranhos estrangeiros” – sempre teve relevância desde sua fundação por Freud. Muitas vezes, não é fácil hospedar os conhecimentos “estrangeiros” e articulá-los com nossos saberes, porque nos inquietam, despertando nossa curiosidade (K), nosso amor (L) e nosso ódio (H), quando nos deparamos com ideias surpreendentes. Destaco a abertura e maturidade da Berggasse 19, com seu conselho editorial para receber artigos de diversos autores com ideias diferentes, particularidades da escrita subjetiva de cada um e também trabalhos vindos de outras áreas.

Encerro com as boas-vindas às colegas Sandra Nunes Caseiro e Maria Lucimar Fortes Paiva Defino que agora farão parte do Conselho Editorial. Agradeço a todos os membros do Conselho, aos pareceristas, tradutores e revisores que colaboraram com esta edição.

Desejo a todos uma boa leitura e o florescer de novas ideias.

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[1] Kristeva, J. (1994) Estrangeiros para nós mesmos. Rocco: Rio de Janeiro. Trabalho original publicado em 1988.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Cinema e Psicanálise de Franca apresenta: 

RELATOS SELVAGENS (Damián Szifron) 
19 de Novembro, sábado, às 15h 
Comentários Dra. Ana Márcia V. P. Rodrigues, membro associado da SBPRP. 

Local: Centro Médico de Franca
Rodovia Tancredo Neves, km 2 - Franca. 

Inscrições no local. Valor: R$ 10,00.


Comentário de Dra. Ana Márcia V. P. Rodrigues, membro associado da SBPRP:

A meu ver, este longa nos proporciona uma experiência libertadora de contato com nossa emocionalidade, através do acesso à identificação psíquica estabelecida com as estórias tragicômicas de seus protagonistas. O refinado senso de humor do diretor nos desarma do julgamento prévio e do preconceito com o fluxo das paixões retratadas em seis estórias independentes, mas interligadas na temática comum de vivências de extrema turbulência mental.

Ao vermos o filme, sentimos que não estamos sozinhos quando sofremos o impacto de emoções e pensamentos selvagens, em situações da vida que ultrapassam nossos limites.

Ao invés de suprimir/abolir tais emoções turbulentas, precisamos encontrar um canal de comunicação para as mesmas, pois estanca-las pela dor que nos provocam, equivale a bloquear fontes de vida psíquica. Se tivermos a liberdade de ver/conhecer a “fera” que naturalmente somos em áreas de turbulência emocional, alcançamos a capacidade real de estar e sentir-se vivo.

Afinal, a vida, por si só, não é um relato selvagem?

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cinema & Psicanálise Ribeirão Preto apresenta: 

O LIVRO DE CABECEIRA (Petter Greenaway) 
19 de Novembro, sábado, às 14h30 
Comentários Dr. Miguel Marques, analista didata da SBPRP. 

Local: Instituto Figueiredo Ferraz
Rua Maestro Inácio Stábile, 200 - Ribeirão Preto. 

A partir do dia 16, as inscrições podem ser feitas na Secretaria da SBPRP 
pelo número (16) 3623-7585. Valor: R$ 25,00.

Cena do filme "O livro de cabeceira" (Imagem: reprodução)




quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Cinema & Psicanálise Ribeirão Preto apresenta: 

O LIVRO DE CABECEIRA (Petter Greenaway) 
19 de Novembro, sábado, às 14h30 
Comentários Dr. Miguel Marques, analista didata da SBPRP. 

Local: Instituto Figueiredo Ferraz
Rua Maestro Inácio Stábile, 200 - Ribeirão Preto. 

Reservem a data! Em breve, mais informações sobre as inscrições.


Comentário de Dr. Miguel Marques, analista didata da SBPRP:

O filme de Peter Greenaway chama a atenção sobre o corpo e seu prazer enquanto fonte de sentido, enquanto tonalidade e qualidade do que os seres humanos podem significar por seus discursos, culturas e sociedades. Produzir sentido, interpretar significados, não é uma atividade puramente cognitiva, ou mesmo intelectual ou cerebral; é o corpo, esse laço de nossas sensibilidades que significa e interpreta.

O corpo-papel é matéria prima na experimentação artístico-literária de Nagiko, personagem principal de O Livro de Cabeceira. O fascínio pela escrita sobre a pele produz um total de 13 livros que variam de acordo com o papel-pele e o tema-pessoa envolvidos em suas criações.

O livro de Sei Shônagon, um clássico da literatura japonesa, uma das referências básicas do filme, aponta apenas duas coisas como dignas de confiança: “o prazer da carne” e o “prazer da literatura”; a união dos dois prazeres significa alcançar o êxtase, a plenitude.

Que continuidade há entre o prazer do ventre e o prazer estético, entre o bem-estar da carne e o sentimento de euforia do sábio, do filósofo, do apaixonado pelas artes?

terça-feira, 8 de novembro de 2016


O Cinema e Psicanálise de Franca apresentou O estranho em mim (2008) no dia 22 de outubro. A palestrante Dra. Denise Lopes Rosado Antônio, psiquiatra-psicanalista e membro efetivo da SBPRP, comentou o filme:

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O Estranho em mim (Alemanha, 2008), dirigido pela cineasta alemã Emily Atef, levou o prêmio de melhor filme e melhor atriz na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo naquele ano.

O filme nos apresenta de modo delicado à dolorosa experiência de uma mãe saudável diante da complexidade emocional despertada pelo nascimento de um filho. No início do filme, Rebecca (Susanne Wolff), a protagonista, na faixa de 30 anos, está grávida. Ela é uma mulher tranquila, vive um casamento amoroso com Julian (Johann von Bülow), tem prazer em seu trabalho e está feliz à espera de seu primeiro filho. As circunstâncias nos levam a crer que o nascimento do filho irá transcorrer tranquilamente, que veremos as cenas clássicas da chegada de um bebê e a relação amorosa entre mãe e filho.

Cena do filme O estranho em mim (Imagem: divulgação)

“Nós todos crescemos com esta noção de que uma mãe irá amar o recém-nascido instintivamente e incondicionalmente. Há algo quase sagrado nessa imagem idealizada da mãe”, comenta Emily Atef.

A tranquilidade e a idealização desaparecem a partir do momento em que Rebecca experimenta as dores do parto. O nascimento ocorre, o filho é apresentado à mãe, porém ela já está imersa num estado mental inesperado. Num estado mental de indiferença e distanciamento. Rebecca não consegue receber seu bebê com aquele amor esperado por ela e por todos nós. Rebecca experimenta sentimentos de extrema estranheza em relação ao filho.

Segundo Winnicott (psicanalista inglês), quando o bebê nasce e a mãe se vincula a ele, ela se identifica com seu estado de dependência e desamparo. Se nenhum aspecto da mãe for sentido como uno ao bebê, se não existir nenhuma identificação dela para com ele, o bebê será vivenciado como sendo um “objeto” estranho. 

O filme transcorre sob esse clima de estranheza entre mãe e bebê, entre marido e mulher, mostrando como as relações familiares foram afetadas por esse estado mental da Rebecca. Ele nos apresenta ao que a psiquiatria denomina “depressão pós-parto”. 

Essa obra de Atef é perturbadora ao narrar as angústias profundas a que qualquer um de nós está sujeito a ser lançado, porém é um filme que consegue criar esperanças ao nos mostrar, com delicadeza, a importância dos cuidados de profissionais da saúde com a mãe, com o bebê e com o casal.

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Para acessar as fotos do evento, é só clicar no link: goo.gl/wlX3jG

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Venha participar de mais um Terças na Sociedade no dia 08/11.

Local: Rua Ércole Verri, 230 - Jd. Ana Maria - Ribeirão Preto
Telefone: (16) 3623-7585
Inscrições gratuitas pelo e-mail sbprp.tercas@gmail.com (Vagas Limitadas)



Hospitalidade

Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis

O tema da hospitalidade é central dentro da técnica psicanalítica porque se refere ao “receber, abrigar, acolher”, que estão na essência do vínculo analítico.

Na Odisséia de Homero há uma bela passagem que retrata os costumes do acolhimento ao estrangeiro na antiguidade. Ulysses chega à terra dos Feácios como náufrago. Ele havia passado por momentos muito difíceis, enfrentando forte tempestade no mar, que destruíra seu navio e matara seus companheiros. Lutou contra ondas e ventos violentos. Nadou desesperadamente, reunindo todas suas forças, até atingir terra firme. Chegou exausto, só, nu, faminto, marcado no corpo e na alma pelo longo período de sofrimento. É encontrado por Nausícaa, filha do rei dos Feácios. Ulysses solicita a ela hospitalidade e recebe no reino abrigo, vestimenta, alimento, ouvidos atentos, sensibilidade a suas dores, antes mesmo que saibam que ele era o herói da guerra de Tróia. É ali que recupera as condições para retornar a sua terra.

A pessoa que nos procura em nossos consultórios é o estrangeiro, o Outro estranho a nós, que vem a nós trazendo seus sofrimentos e suas lutas, solicitando hospitalidade em nossas mentes. A partir da acolhida que puder experimentar no campo intersubjetivo, estará aberta a possibilidade de abrigar seus próprios conteúdos, ampliando a hospitalidade intrapsíquica às experiências emocionais, criando condição de simbolização e narrativa.

Sabemos, no entanto, que o processo de acolhimento está sujeito às mais diversas formas de hostilidade, ameaças provenientes de mecanismos psíquicos a serem identificados. Tratar então sobre processos de hospitalidade/hostilidade na intimidade do vínculo analítico é abordar um tema central de técnica psicanalítica.
“Um escritor não escreve, ele inscreve, inaugura, instaura, funda”, disse Marcelino Freire em palestra organizada pela AMFIP na última sexta-feira. É assim, brincando com as palavras, que Marcelino encanta com sua escrita. E com a fala também, afinal manteve a plateia envolvida em suas estórias e declarações por quase duas horas. A proposta era falar sobre sua trajetória literária e a influência de outros autores em sua obra e assim o fez com maestria.

(Imagem: Carolina Rodrigues)
Marcelino é escritor e poeta pernambucano, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 2006 com sua obra Contos Negreiros. Também é autor de Angu de Sangue (2000), BaléRale (2005), Nosso Ossos (2013), entre outros. A verdade é que tudo começou lá trás, nos anos 90, quando Marcelino passou a brincar de enxergar palavras dentro de palavras e publicou EraOdito (2002) a fim de levantar fundos para a publicação de Angu de Sangue.




(Imagens: reprodução)

A brincadeira foi um sucesso, o livro vendeu bastante e a carreira de Marcelino estava apenas começando. Ele afirma e dá risada: “eu acho que escrevo porque não tenho o que fazer, fico pensando palavra dentro de palavra. Essa é a natureza do meu trabalho inteiro, eu quero ver o que está escrito nas entrelinhas”. Bem, neste caso, não ter o que fazer resultou e ainda resulta em uma obra ao mesmo tempo divertida e extremamente provocadora, não é mesmo?

Tal provocação vem, sem dúvidas, do senso crítico que Marcelino aprimorou durante todos esses anos. Ainda criança, ao ler “O bicho” de Manuel Bandeira, enxergou a vida com outros olhos, passou a se expressar com uma linguagem singular e a retratar muito do que viveu no Nordeste.

O escritor nasceu em Sertânia (PE), mudou-se para Paulo Afonso (BA) aos 3 anos, para Recife (PE) aos 8 e para São Paulo capital aos 24. Ele afirma que “esse não lugar, essa espécie de deslocamento” faz parte de seu trabalho, inclusive da brincadeira com as palavras, e pede: “por favor, não leia uma palavra minha apenas com um sentido único, pois ela está em permanente movimento, permanente migração” - assim como ele, assim como o povo nordestino.

Em sua obra também estão muito presentes as figuras de seus pais. Sua mãe sempre faladora, sofredora, insatisfeita com a vida. Seu pai sempre quieto, em silêncio profundo, calculando a hora certa de dizer a coisa certa. Tais influências resultaram em um conjunto de obras de crítica social e beleza única, como quem faz da dor e do sofrimento, literalmente, poesia e inspiração. Seu primeiro texto já expressava tudo isso, mesmo que inconscientemente: intitulado Muribeca (presente em Angu de Sangue), retrata a realidade das pessoas que catam lixo neste bairro e fazem dele o paraíso.

Além de Manuel Bandeira, teve grande influência de escritores como Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos, Graciliano Ramos. Mas sabe que a inspiração não veio só dos livros e cita Belchior. “Belchior me disse coisas que eu precisava ouvir para sair da fila do matadouro que colocam a gente. Esses artistas me pegaram pela mão, aqui e ali, e me levaram para um outro lugar”, reflete. Diz concordar plenamente com a afirmação de Freud: “quando a gente chega a algum lugar, um poeta chegou antes”.

Por tudo isso, Marcelino pode afirmar com convicção e orgulho que, mais do que dar voz a essas pessoas (seu pai, sua mãe, os nordestinos em sofrimento e migração constantes) ele escreve para compactuar com essas falas e gritos, que mesmo em silêncio dizem muita, mas muita coisa.

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Para acessar todas as fotos do evento, basta clicar no link: goo.gl/Z3kNFT

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Marcelino Freire em palestra no auditório da SBPRP (Imagem: Carolina Rodrigues)

A Diretoria da AMFIP, organizadora do evento “EntreTextos”, ocorrido na última sexta-feira, dia 28, e que contou com a presença do escritor Marcelino Freire, cometeu um equívoco ao publicar o poema intitulado "Nunca conheci o Amor", veiculado nessa página. Esclarecemos que o mesmo não foi reconhecido pelo escritor como sendo de sua autoria.

Como forma de retratação, segue abaixo o link para que possam desfrutar do ator Walmor Chagas interpretando primorosamente o conto “BELINHA”, escrito por Marcelino, e sugerido pelo mesmo. Essa obra ilustra as limitações das palavras do narrador para expressar seu amor por Belinha.



Pedimos desculpas pelo ocorrido.

Atenciosamente,
Diretoria AMFIP.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016





Num poema de fôlego, o cão, o rio, a mulher que sai da ostra, Recife aberta como uma fruta, João Cabral de Melo Neto emerge do rio e não está só. Leva junto e pela mão Manuel Bandeira que entendia do bicho homem, leva também Caetano Veloso. It’s a long, long, long away. É preciso essa gente toda, diz o poeta Marcelino Freire, para se atravessar e suportar as esquinas da vida.
            
MARCELINO FREIRE é escritor. Nasceu em 1967, em Sertânia, PE. Viveu no Recife e, desde 1991, reside em São Paulo. É autor, entre outros, dos livros “Angu de Sangue” (Ateliê Editorial) e “Contos Negreiros” (Editora Record – Prêmio Jabuti 2006). Em 2004, idealizou e organizou a antologia de microcontos “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (Ateliê). Alguns de seus contos foram adaptados para teatro. Participou de várias antologias no Brasil e no exterior. “Contos Negreiros” foi publicado em 2013 na Argentina, pela Editora Santiago Arcos e com tradução de Lucía Tennina. Criou a Balada Literária, evento que, desde 2006, reúne escritores, nacionais e internacionais, pelo bairro paulistano da Vila Madalena. É um dos integrantes do coletivo EDITH, pelo qual lançou, em julho de 2011, o livro de contos “Amar É Crime”. No final de 2013, publicou seu primeiro romance, intitulado “Nossos Ossos” (Record), publicado também na Argentina, pela editora Adriana Hidalgo, e na França, pela editora Anacaona, e com o qual ganhou o prêmio Machado de Assis 2014 de Melhor Romance pela Biblioteca Nacional.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016



Conversa com o escritor Marcelino Freire

A AMFIP (Associação dos Membros Filiados do Instituto de Psicanálise da SBPRP) terá o prazer de receber o escritor pernambucano Marcelino Freire para um encontro de poesia e prosa.
O evento “EntreTextos – uma conversa com Marcelino Freire sobre sua trajetória literária e a influência de outros autores em sua obra” é uma oportunidade para os amantes da literatura desfrutarem da companhia de um grande escritor e uma personalidade única.
Tentando escapar de uma apresentação que engesse muito nosso convidado, tão cheio de vida, escolhemos o fragmento de um poema de Marcelino que fala por si só.

POEMINHA DO EMPODERAMENTO

  (Marcelino Freire)
“Quem disse que eu sou branco?
Bicho? Santo?
Quem disse que eu sou Deus?
Que eu sou crente?
Gente?
Quem disse que eu sou
ateu?
Quem disse que eu sou
do Nordeste?
Cabra?
Da AIDS?
Da peste?
(...)

Quem disse que eu não tenho
medo?
Diante deste espelho nu.
Nua
a minha alma
é cega.
Sábia. Suja.
Do palacete à rua.
Da lua ao sol.
Minha solidão
filha da puta.
É feliz? Infeliz?

Quem disse de mim
não sabe o que
diz.”

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

CINEMA E PSICANÁLISE RIBEIRÃO PRETO APRESENTA
 
21 de Outubro, sexta-feira, às 19h30 
CARNE TRÊMULA (Pedro Almodóvar)
Comentários Dr. Júlio Labate, membro filiado da SBPRP. 
Local: Anfiteatro da Unidade de Emergência (UE) da FMRP-USP
Rua Bernardino de Campos, 1000 Ribeirão Preto.
 

Comentário Júlio Cesar Labate:

A partir de uma Espanha reprimida pela ditadura de Franco e abalada por movimentos pela liberdade e democracia, Almodóvar nos apresenta estados psíquicos em que podemos visualizar conflitos similares no funcionamento da mente humana. Estados em que desejos intensos são reprimidos, deslocados, mas não param de pulsar, direcionando a vida de cada personagem. Paixão e ódio norteiam ações como traições, corrupção, assassinatos, sobrepondo-se à essência de cada um. Sendo fiel a si mesmo, o protagonista percorre uma longa jornada até poder se realizar e alcançar um estado de  mente fértil e enriquecida, com relacionamentos construídos na verdade do que se sente. Se, no início do filme, Madrid é retratada vazia, no final aparece cheia de carros, mostrando um trânsito de ideias que fluem em busca de realizações.

Julio Cesar Labate, membro filiado da SBPRP.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Cinema & Psicanálise de Franca apresenta:
A psicanalista Denise Lopes R. Antônio, próxima palestrante, conta que "o filme nos apresenta de modo delicado à dolorosa experiência de uma mãe saudável diante da complexidade emocional despertada pelo nascimento de um filho".
Isso porque a protagonista Rebecca está grávida e vive um ótimo momento em sua vida amorosa e profissional, mas logo após o parto se vê imersa em um estado mental inesperado, de indiferença e distanciamento em relação a seu bebê.
Denise também diz que "segundo Winnicott (psicanalista inglês), quando o bebê nasce e a mãe se vincula a ele, ela se identifica com seu estado de dependência e desamparo. Se nenhum aspecto da mãe for sentido como uno ao bebê, se não existir nenhuma identificação dela para com ele, o bebê será vivenciado como sendo um 'objeto' estranho".
Dessa forma, o filme nos apresenta ao que a psiquiatria denomina depressão pós-parto - a qual atinge 1 em 4 mulheres no Brasil, de acordo com a Escola Nacional de Saúde Pública.
Prontos para esse debate que promete ser interessantíssimo? Contamos com a presença de todos vocês!


sexta-feira, 14 de outubro de 2016



SEMEANDO A PSICANÁLISE FRANCA
 Venha participar de mais um Semeando a Psicanálise - Franca no dia 18/10/2016

Adolescência, Drogas e Abstinência das Emoções

                                               Fernanda Sivaldi Roberti Passalacqua
                                               Membro efetivo da SBPRP



            A vivência da adolescência traz consigo profundos sentimentos contraditórios, gerando conflitos muitas vezes acompanhados de sofrimento insuportável.
            Tais sentimentos nascem principalmente das mudanças corporais, do avanço da função da sexualidade,  da necessidade do trabalho de luto da infância, do contraste entre fantasia e realidade.
            Esta experiência pode desorganizar a mente do jovem adolescente, causando inquietações, turbulências e desorganização psíquica.
            Buscam incansavelmente medidas protetoras que ofereçam alívio para a dor, e no caminho encontram o mundo das drogas, tais como a cocaína, maconha, êxtase. Neste caminho, podem deparar-se também com outros tipos de drogas, como o comportamento delinquencial, isolamento social, promiscuidade, e tantas outras.
            São drogas porque entorpecem a mente, incapacitando os adolescentes de pensar, de elaborar suas angustias. Vivem uma situação dramática, enclausurados num estado mental de abstinência das emoções: se eu não sinto, eu não sofro.
            

quinta-feira, 29 de setembro de 2016


Venha participar de mais um Terças na Sociedade no dia 04/10.

Local: Rua Ércole Verri, 230 - Jd. Ana Maria - Ribeirão Preto.
Telefone: (16) 3623-7585
Inscrições gratuitas pelo e-mail sbprp.tercas@gmail.com (Vagas Limitadas).



Envelhecer...
                                                                            M. Lucimar F. Paiva Defino

                                              ...“O corpo, na velhice, é o lugar privilegiado de desilusão narcísica, prometido à decadência; é palco do adoecer, empurrando o sujeito para o desafio de manter a aposta na vida”. (Rosa, 2014)
                                                ... (o bicho que somos) “que decide que é chegado o momento de começarmos a desligar-nos os sentidos e decide como e quando devemos padecer de que tipo de dor ou loucura”. (Mãe,V. H. 2016)   

                             
A iminência de tornar-se alguma coisa que ainda não somos, ou que ainda não nos damos conta de que estamos sendo, tem um lado impactante, e, não raro, assustador. As transformações, mesmo as mais desejáveis e que nos trazem um ganho estético, ainda assim trazem seus momentos difíceis, pelo ser “estranho” que se apresenta. Os sentimentos angustiosos daí derivados podem se aconchegar em espaços mentais de obstruções ou refúgios, e podem ser vividos como possibilidades confortáveis, destituídos de sua função e de seu nome próprio, que é negado. 
O envelhecer, longe do glamour das transformações esperadas, desejáveis, não fica isento da negação das alternativas ao vazio que se instaura a partir das perdas crescentes (amores, capacidades, importância para outros), características da experiência do envelhecimento. Essa situação incita ao retraimento dos investimentos, ao aparente egoísmo e desinteresse em relação ao que não se refere às memórias, desejos e necessidades imediatas da pessoa que envelhece.
De outro modo, resultante de processos igualmente denegativos, há a possibilidade de permanência de um estado que alguns denominam de “envelhescência”, considerado um período entre a idade adulta e a velhice, equivalente ao da adolescência como período interposto entre a infância e a idade adulta. A tentativa, no nosso mundo contemporâneo, de amenizar os encargos da velhice, as perdas e sofrimentos de toda ordem, confirma a necessidade de “ignorar a morte como parte integrante da vida”, como sentia Freud, em suas “Reflexões para os tempos de guerra e morte” (1915). A grande ênfase na preservação da juventude física conspira ainda mais em favor de processos que exercem a função de um trabalho não estruturante do negativo, como destacam alguns (Rosa, 2014).
Nesse encontro, pretendo conversar sobre possibilidades para o envelhecimento que se situam entre a permanência de um estado de recolhimento e desinvestimento objetal, e a negação do “estranho” que nos surpreende. 

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