quinta-feira, 3 de dezembro de 2015


VOCÊ, OS VIVOS - Direção: Roy Andersson- Produção: Suécia/Alemanha/França/Dinamarca/Noruega-
60 Festival de Cinema Internacional- Cultura Mostra Seleção Oficial de Cannes

Vocês, os Vivos rompe com a estrutura narrativa clássica para contar sua história por meio de um mosaico de acontecimentos, composto por uma série de quadros que ilustram situações humanas.

Por 94 minutos, acompanhamos mais de 50 vinhetas, quase todas apresentadas em planos-seqüência, sem cortes, com monólogos e diálogos obscuros e, muitas vezes, perturbadores. Tudo minuciosamente coordenado e enquadrado com uma câmera fixa, quase sempre a partir de um plano levemente elevado, nos forçando a olhar a cena não só no primeiro plano que acontece a ação, mas também por trás de uma riqueza de detalhes, em uma aparente banalidade.

Acompanhadas de humor e música, situações de enganos e desencontros são apresentadas sem que necessitem qualquer relação direta entre si, unidas pela ocorrência no próprio espaço. Cada vinheta sustenta-se sozinha, mas, aos poucos, algumas narrativas começam a surgir, apesar de desnecessárias: o essencial é o que o diretor denomina de trivialismo - pequenas ocorrências que pontuam a tragicomédia humana.

As historietas vão montando um painel da cotidianidade urbana. A genialidade está em tratar sobre a humanidade , sem  ostentação. Perspicazmente, ela  é convidada a encenar o filme, em um movimento de pequenas cenas do dia-a-dia. Não é esse comum que compõe a nossa vida? A simplicidade apresentada remete a uma sofisticada apreensão da nossa existência.

Os personagens que cruzam o filme, dos mais comuns aos mais bizarros, trazem um aspecto solitário. Eles se apresentam empalidecidos por peculiar maquiagem e ocupam seus mundos parecendo mortos-vivos, vagando pelos cantos, arriscando desde questões da sobrevivência diária até indagações filosóficas na tentativa de alcançar algum sentido. Eles revelam muitos elementos que compõem a complexidade de existir.

Ao assistir o filme transitamos entre espectadores e protagonistas em uma flutuante condição de observar e de sermos vistos. Vocês, os vivos: Um convite para pensarmos sobre a preciosa e precária condição humana.

Roy Andersson, o diretor, nasceu em 1943 na Suécia. Em 1960, resolveu tornar-se cineasta e teve Ingmar Bergman como orientador.

Realizou seu primeiro filme Uma história de amor sueca (1969), longa metragem premiado.  Enfrentou o fracasso comercial e de crítica, de Giliap (1975).

Posteriormente, dedicou-se ao mundo dos comerciais. Com o sucesso na carreira da publicidade fundou sua produtora e seu estúdio, o Studio 24, onde desenvolveu um estilo próprio de fazer comerciais, em geral de longa gestação e apuro visual.

Após anos, volta à cena com a trilogia sobre a existência: Canções do segundo andar (2000), Vocês, os vivos (2007) e  Um pombo pousou no galho refletindo sobre a existência (2015), filmes premiados e aclamados em todo mundo.

Renata Sarti – SBPRP.


Cinema e Psicanálise de Franca
Artigo para o Caderno de Artes do Jornal Comércio da Franca sobre o filme “VOCÊS, OS VIVOS”

O que dizer da incomunicabilidade de dois amantes entrelaçados numa forma de prazer sensorial que os acalma, enquanto se envolvem emocionalmente consigo mesmos?
O que pensar da solidão desesperada de uma jovem adolescente que precisa urgentemente se sentir amada por um belo músico, enquanto ele se volta para suas necessidades de sucesso?
E da angústia com que alguém acorda de manhã após ter tido um sonho no qual foi condenado à morte por ter desafiado séculos de tradição e velhos hábitos?
E como falar do desamparo de quem trabalha todos os dias junto a companheiros que estão emparedados e surdos para uma forma mais pessoal de convivência? Ou do choro de quem não pode compartilhar no trabalho o que acabou de viver no lar?
Estas e outras questões corriqueiras de nosso cotidiano poderão ser refletidas por aqueles que comparecerem à próxima sessão de “Cinema e Psicanálise de Franca”, no dia 14 de novembro, quando será apresentado o filme “Vocês, os vivos”, do diretor sueco Roy Andersson e que faz parte da Mostra Internacional de Cinema da Cultura. Para comentá-lo convidamos a psicanalista da SBPRP e psicóloga, Renata Sarti.
O filme mostra situações triviais do dia a dia com suas realidades estranhas, ainda que familiares. Cada uma delas nos expõe ao impacto da experiência que revela um paradoxo da condição humana – estar vivo é uma necessidade humana bem mais complexa do que aparenta ser, pois não basta ter todas as funções vitais perfeitas ou apenas parecer vivo.
Neste filme, os personagens mostram os mal-entendidos que surgem quando se encontram ou ficam juntos, mas não conseguem se comunicar. Se sentem abandonados, isolados, traídos, esquecidos, descartados, ao serem privados da atmosfera afetiva que une, comunica e humaniza.
A arte e a psicanálise contemporâneas vêm explorando e investigando os processos de vitalização e desvitalização dos modos humanos de ser e estar no mundo.
E não seria esta a razão de haver tantos filmes e seriados atuais sobre zumbis que contagiam ou devoram os vivos, ameaçando a humanidade inteira de se tornar uma população de mortos-vivos?
            Portanto, acredito que o diretor sueco esteja sintonizado com este fenômeno humano e, através do filme, propõe uma reflexão essencial através de cenas condensadas e estilizadas sobre a automatização das relações humanas numa sociedade cada vez mais apta a sobreviver e com recursos sofisticados para ter vida longa.   
A solidão e a comunicação são duas partes vitais e complementares da personalidade humana – dois momentos do mesmo e comovente fenômeno humano que é o “estar vivo”.
Uma comunicação viva pressupõe haver uma rica capacidade de se estar consigo mesmo e assim promover intimidade com privacidade. Quando alguém tenta se agarrar a apenas um lado deste fenômeno, solidão se torna isolamento e comunicação gera transparência e dependência excessivas.
A psicanálise atual ampliou seu eixo principal de tornar consciente o inconsciente para o da construção de vivências capazes de captar vida em áreas inacessíveis da mente, ampliando a capacidade de se experimentar emoções vivas de qualquer natureza e poder sustentá-las através do pensamento, para que o ser humano possa ter contato e se apropriar daquilo que tem de mais vivo e verdadeiro.  Sendo assim, transmitir o sentido da experiência humana viva é nosso maior desafio e tarefa de contínuo esforço e coragem.
Pela complexidade inerente à vida e ao ser humano, ao tomar o cinema como fonte de matéria prima semelhante àquela do inconsciente, a Psicanálise não lhe subtrai o seu caráter de estranheza, mas adentra seus mistérios respeitando suas impenetrâncias. Poderemos, desta forma, tentar extrair do próximo filme, tão instigante, observações sobre as forças de vida e de anti-vida que nascem de toda relação humana, principalmente quando não as conhecemos e nos acomodamos àquelas de mais fácil trato.
Em novembro comemoramos 7 anos de vida do “Cinema e Psicanálise” junto aos francanos, o que nos enche de alegria e honra, pois este ninho foi construído criativamente em nossa cidade, com o clima caloroso de casa cheia e debate intenso na maioria das sessões, o que define a riqueza incomparável do trabalho revitalizante que temos realizado juntos.
Venha celebrar conosco mais um ano desta feliz parceria e conversar sobre “Nós, os vivos”!

Data e local: 14/11/15 às 15 hs,
Na Sede Campestre do Centro Médico de Franca


Ana Márcia Vasconcelos de Paula Rodrigues
Psicanalista da Sociedade Bras. de Psicanálise de RP e psiquiatra.
anamarciavpr@uol.com.br

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