quarta-feira, 11 de maio de 2016

Cinema & Psicanálise de Franca apresenta: 


Leiam os comentários do Luciano Bonfante sobre o filme "O Duplo" apresentado em 16 de Abril

A todos que estão acompanhando o Cinema & Psicanálise de Franca temos a seguir os comentários do instigante filme “O Duplo”, apresentado em abril, comentários de Luciano Bonfante. Aproveitamos esta oportunidade ímpar de reflexão sobre a aridez, a incompletude, a pluralidade e a miserabilidade que cada indivíduo comporta dentro de si. Assim como, sobre as concomitantes formas de se driblar a dor mental, na tentativa de darmos vazão à vida.

                                                          O Duplo

                                                                              “Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim”
                                                                                                      Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

No início do filme O Duplo, assistimos a uma cena em um vagão de metrô com apenas dois passageiros. Um deles, segurando um jornal, cuja manchete é “Collapse\Colapso”, como se anunciasse o que está por vir, ordena a outra pessoa a deixar assento: “você está no meu lugar”, diz. A segunda pessoa é Simon James, funcionário em um escritório de ambiente claustrofóbico, sem janelas ou luz natural. O prédio da empresa é ligado à estação do metrô pelo subsolo. É constrangedora a falta de reação de Simon ao ceder à exigência do desconhecido. Na mesma sequência, Simon observa uma garota no outro vagão, tenta alcançá-la, mas falha. Trata-se de Hannah, garota que Simon vive observando por uma luneta e almeja conquistá-la, mas não se encoraja em revelar sua admiração. Ao sair do trem, a maleta de Simon fica prensada na porta, ele puxa e fica só com a alça na mão enquanto trem parte. A essa altura, rimos do ridículo da cena, mas lastimamos a inabilidade do rapaz, momento em que a empatia com o personagem está em jogo, e dependerá da identificação do espectador com o personagem. O que segue vai causando estranhamento e nos lançando no absurdo dos acontecimentos na noite interminável do filme, sem cenas à luz do dia.
Simon é um jovem tímido, sem iniciativa, meio desajeitado e isolado da convivência social em um mundo onde as pessoas a sua volta parecem insatisfeitas ou infelizes. Tudo parece dar errado para ele no transcorrer do dia, às vezes, mostrado com comicidade, mas um humor desconcertante, evidente quando Simon é interrogado por dois investigadores de um suicídio testemunhado por ele. Banalizam a vida e a morte dando um tratamento também burocrático para o trabalho deles.
Desde o início, sabemos da fragilidade de Simon e o quanto lhe falta iniciativas e recursos internos para sua sobrevivência. Uma pessoa cujos pensamentos e ações estão em constante conflito, sem sentimento de liberdade, um pássaro que se choca com uma vidraça, como é mostrado numa cena, dentre outras com elementos simbólicos espalhadas no filme. Ele é uma pessoa “sem voz”, sua boca esboça movimento, mas as palavras não se articulam, morrem em seus lábios, e seu desejo emudece. Sabemos que as situações em que fracassa dependem de suas atitudes, mas ele é pouco capaz de lidar com a vida. Na empresa, apesar de insistir nos sete anos de casa, que alega ter, Simon não é reconhecido pelo porteiro, o que o obriga a apresentar crachá a todo o momento, ou forçado a preencher uma ficha de visitante porque ele não existe nos arquivos da empresa, situação que funciona como metaforização para mostrar como ele é anulado por um sistema em que o ser humano é “apenas parte do negócio”, como diz um personagem. Seu chefe sequer o chama pelo nome, tratando-o por Stanley. São modos de anunciar seu desaparecimento como ser humano que “não consta no sistema”, significando uma ameaça à sua subjetividade, sua identidade e senso de existência.
O cotidiano de Simon é transformado com a chegada de um novo funcionário, James Simon, de fisionomia idêntica à de Simon James, mas de personalidade oposta: simpático, assertivo, sedutor e funcionário eficiente.  Com tantas qualidades faltantes a Simon, este passa a sentir-se ameaçado, porém, o espanto de Simon é a semelhança física com James, o que potencializa seu sofrimento. Ele continua perturbado diante de seu “sósia”, sentindo-o como um espectro ameaçador, como se o “duplo” fosse usurpando sua identidade, seu lugar na empresa, e ele fosse desaparecendo. A perturbação na mente de Simon amplia e testemunhamos seu crescente desespero até o desfecho.
Tanto para o leitor do livro quanto para quem assiste ao filme, existe uma dificuldade de compreensão de como se dão os acontecimentos da história. Para o raciocínio lógico linear, ficamos confusos em distinguir os momentos de imaginação, memória, sonho, alucinação ou a realidade material. Ora há clareza de que há apenas um homem dividido, ora de alguém que está interagindo com outra pessoa por quem está se sentindo perseguido. Mesmo porque, livro e filme mostram outros personagens interagindo com “o duplo”. São leituras possíveis porque não é essa a questão proposta. O importante aqui é a “divisão” que o personagem sofre, ou seja, importa a realidade psíquica, a dor da solidão e o sentimento de não existir.
Há um trabalho de Freud (O Estranho,1919), ele desenvolve a ideia da capacidade que nós temos de observarmos a nós mesmos e o sentimento de estranhamento que podemos ter. O próprio Freud experimentou esse sentimento de estranhamento, contando que durante uma viagem de trem, ele se levanta de noite de pijama e, caminhando pelo corredor do vagão, ele olha para o no final do corredor e vê a figura de um “estranho”, e diz que a figura do homem não lhe agradou muito, até então, constatar que era ele mesmo refletido no espelho de uma porta aberta à sua frente. Ele conta que encontrou seu duplo, e experimenta o sentimento de estranhamento. Simon faz o abandono da capacidade de se auto-observar e sente-se invadido por outra parte sua que inicialmente lhe parece estranho por não reconhecê-la como sua.
No caso do filme, essa ideia é útil porque Simon, ao tratar James como completo estranho, abandona o que Freud chamou inicialmente de “censura psíquica” ou “superego” e perde a capacidade de observar a si mesmo, assim toma por estranho o que é parte dele mesmo. A respeito ainda do sentimento de estranhamento, Freud afirma que ele é próprio do reavivamento de complexos infantis reprimidos. Referindo ao tema do duplo como “distúrbio do Eu”, Freud escreve que “são um recuo a determinadas fases de evolução do sentimento do Eu, uma regressão a um tempo em que o Eu ainda não se delimitava nitidamente em relação ao mundo externo e os outros”. Simon sente ser governado por James porque a fronteira entre realidade e fantasia já não mais existe, ele estava assombrado por um fantasma de si mesmo.
Simon desejava ser alguém com características que não conseguia ter. Ele diz: “Não vejo o homem que quero ser em relação ao homem que sou”. Essa condição do personagem confirma que o sofrimento é maior quando há muita distância entre o que se é, e aquilo que se gostaria de ser porque requer lidar com mais frustrações.
Sobre a idealização de um outro Eu, há um detalhe interessante que não consta no livro, mas aparece no filme, que é a figura da mãe de Simon que no filme é mostrada como uma mãe que depreciava o filho.  Se a maneira como um filho existe na mente da mãe é muito importante para a qualidade da existência desde o início da relação como bebê, ela surge como uma mãe invasiva. E nas cenas que ela surge, está sempre acompanhada de outra figura, sempre  fazendo duras críticas a ele.  A hipótese é que dessa relação formou-se “uma figura interna que se configura como um alguém que retira todos os seus valores e aponta seus fracassos: um estado mental anormal da mãe que condena o bebê por não se adequar ao seu ideal preestabelecido” (O’Shaughnessy,1999).
Do contato com a mãe, o vemos na tela constitui seu mundo de fantasias e de um grande delírio de Simon. São imagens bizarras, oníricas, um sonho interminável, desde as visitas feitas a ela, até sua morte e a terrorífica sequência do enterro, mostrado como um pesadelo na tentativa de solução de seu conflito. Simbolicamente, o enterro seria da parte que o persegue, para aliviar sua mente cansada e proteger a outra parte do Eu.
Quanto à Hannah, ela quase não tem função dramática. Inicialmente, sua presença reforça o fracasso em lidar na relação com o outro. Simon está centrado demais em si mesmo para, realmente, interessar-se por Hannah.  Houve a intenção de inserir um gesto romântico, como os brincos que Simon troca pela TV, o que pode representar a tentativa dele de vê-la, de fato, como uma parceira. No livro não há o pretenso par romântico e não é essencial para contar o drama dele.
No entanto, Hannah acaba tendo uma função importante, principalmente, na cena final, que me lembrou a afirmação do filósofo irlandês Berkeley: “Ser é ser percebido/esse es percepiti” que é pertinente à cena de Simon deitado na ambulância, seu olhar conectado a o olhar de Hannah, usando os brincos presenteados por ele. Isso remete ao olhar materno que Simon pode não ter vivido, de acordo com a mãe mostrada no filme e seu sentimento solidão indica algo da qualidade da relação com a mãe no início de sua vida. Podemos pensar que Simon é olhado daquela maneira pela primeira vez. Já não se sente tão sozinho. Seu corpo pode estar morrendo, mas ele experimenta a verdadeira existência pela primeira vez. É seu nascimento psíquico.
A cena em que Simon diz que seu corpo poderia ser atravessado por uma mão é muito angustiante, traz o pavor do sentimento de não existência e até a necessidade de se cortar para se sentir vivo. Há o risco de se perder a identidade se ela não estiver firmada e bem integrada, antes que se “acostume a morrer”, como alguém diz no filme. Na vida, há o risco de se ser apenas um número, da pulseira da maternidade à lápide tumular, com o intervalo entre um e outro preenchido somente com rótulos e crachás. É trágico o indivíduo não conseguir ter em si um senso de existência, a marca psíquica genuína que o faz único.
Pode-se ser solitário, mas capaz de ser companhia para si mesmo. Frágil e precário, mas com recursos internos para sofrer menos. Sentindo ser muitos, mas todos integrados em um: único, como deseja Simon em sua última fala, “gostaria de pensar que sou o único”. Unicidade que demanda viver a dor da incompletude e consequentes frustrações na relação com o outro diferente mim; capacidade de ser boa companhia para si mesmo, responsabilidade pelo que leva dentro de si, e, a arcar com as escolhas feitas. O escritor Luigi Pirandello resume bem essa ideia: “O aspecto trágico da vida está precisamente nessa lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo”. Mesmo condenados a escolher, é fundamental dar-se conta que em nossa mente são muitos os que nos habitam e, poder viver em harmonia com essas dimensões de nossa mente, é nossa arte, nosso desafio. 
                                                                                  Luciano Bonfante (SBPRP)
                                                                              Lucianobonfante1@gmail.com  

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