terça-feira, 9 de junho de 2015

 


SONHAÇÕES

 As habilidades de traduzir e narrar estão presentes na história da humanidade e são intimamente ligadas à historicidade de todas as áreas de conhecimento e desenvolvimento. Com o desenvolvimento tecnológico no início do século XX, principalmente pelos registros fotográficos, houve um impasse quanto ao destino dessas artes intrínsecas às línguas.
Assim, Walter Benjamin, filósofo alemão do início do séc. XX, dedicou-se a escrever ensaios sobre a arte da tradução e da narração. Ele escreve que nos tempos modernos a capacidade de contar histórias foi ficando cada vez mais rara. Para ele, a escassez dessa capacidade gera a impossibilidade de trocar experiências. Enfatiza que traduzir e narrar exige habilidades especiais: “nenhum poema dirige-se, pois, ao leitor, nenhum quadro, ao expectador, nenhuma sinfonia, aos ouvintes” (Benjamin, 2013, p. 101), eles dependem da habilidade de cada um em fazer sua tradução e sua narração. Ele conclui que “é cada vez mais raro encontrar pessoas que saibam narrar qualquer coisa com correcção” (Oliveira, 2009, p.110 citando Benjamin, 1992: 28).  Francine Oliveira (2009) em “A narrativa e a experiência em Walter Benjamin” afirma que Benjamin nos convida a uma reflexão sobre o fim da experiência e das narrativas tradicionais.
Os psicanalistas, em seu exercício de publicação e divulgação da psicanálise, parecem pertencer a esse reduto raro de tradutores e narradores. Em cada encontro analítico, o analista, tal qual uma câmera com o obturador totalmente aberto, lá está e lá fica, à espera que sua objetiva/subjetiva capte num click único, o raro flash emitido numa “noite escura”, num tempo e espaço finito/infinito. A percepção de elementos que à luz figuram formas que lá não estão e estão em busca de representação, possibilita que a lente/mente do psicanalista registre a cena que é traduzida e narrada.
Os psicanalistas buscam uma aproximação desse espetáculo psíquico através das artes plásticas em geral, da literatura, da poesia, da música, do cinema, da língua, entre outras formas de expressão/representação.
Os encontros psicanalíticos e culturais figuram como o espaço destinado a compartilhar experiências passíveis de narrativas.
Estamos próximos de mais um desses raros momentos de trocas de experiências promovidos pela SBPRP. Nos dias 12 e 13 de junho próximo será realizado o evento SONHAÇÕES e contamos com a presença de todos.
Bibliografia consultada:
Benjamin, W. (2013) A tarefa do tradutor, in Escritos Sobre Mitos e Linguagem. Organização, apresentação e notas de Jeanne Marie Gagnebin; tradução Susana Kampff Lages e Ernani Chaves. São Paulo: Duas Cidades Editora.

Cruz, J. (1993) O amor não cansa nem se cansa. Seleção de textos por Patrício Sciadini, revisão José Dias Goulart. São Paulo: Paulus.

Fontaine, M. L.(1992)- Sete perguntas à Walter Benjamin, in Dossie Walter Benjamin. Revista USP, São Paulo, n.15.

Oliveira, F. (2009) A Narrativa e a Experiência em Walter Benjamin, trabalho apresentado no Oitavo Congresso LUSOCOM. Universidade do Minho.


                                                                                                       Comissão organizadora

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