quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Editorial

“Assim como em todas as formas de arte, quando estudamos um filme, estudamos a nós mesmos” (Gabbard, 1997, p. 433).

         Em 1895, a publicação de Estudos sobre a histeria, por Freud e Breuer, dava início à nova ciência da Psicanálise. No mesmo ano, os irmãos Lumière patentearam e demonstraram o cinematógrafo com a exibição de Chegada de um trem à estação, inaugurando aquela que, em 1912, seria descrita pelo intelectual italiano Riccioto Canudo como a sétima arte, ou, a arte-síntese de todas as outras: o Cinema. Não demorou muito para que essas duas disciplinas, que hoje ocupam um lugar central na cultura, se aproximassem e estabelecessem uma relação de afinidade que perpassaria todo o século XX, chegando à contemporaneidade numa interlocução que cada vez mais rende contribuições a ambas.  
            É grande o número de publicações, entre livros e revistas especializadas, que abordam os diversos aspectos da relação entre a Psicanálise e o Cinema por pensadores de vários campos da cultura, como o filósofo Walter Benjamin e o historiador Román Gubern, para citar dois dos mais produtivos no assunto. Entre os autores da Psicanálise, também hoje encontramos uma gama de ensaios, artigos e obras em que as aproximações com o Cinema, seja em relação à sua equivalência morfológica, seja pela leitura de filmes através da óptica psicanalítica, além de outras abordagens, vêm despertando o interesse do público de maneira significativa.
            Acompanhamos ainda o crescente espaço que esse diálogo interdisciplinar tem ocupado em jornadas e congressos de Psicanálise, a exemplo do recente Congresso da Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL), realizado em setembro, em Buenos Aires, que contemplou em seu Programa Científico o I Encontro Latinoamericano de Cinema e Psicanálise, organizado em parceria de sua Comissão de Comunidade e Cultura e a Fundación Universidad del Cine (FUC). Através de quatro oficinas simultâneas, integradas por psicanalistas e destacados críticos e cineastas convidados, foram discutidos temas instigantes como “Poder e violência na cena”, “Os tempos da vida”, “Identidade, criação, personagens” e “Subjetividade e Cultura”.    
A edição da Berggasse 19 que ora apresentamos, inteiramente dedicada ao tema “Cinema & Psicanálise”, visa não só à participação nesse contexto de interação entre as duas áreas, mas principalmente a homenagear os 15 anos do C&P, atividade promovida pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto que, desde seu início, arrebata o interesse da comunidade ribeirão-pretana e hoje conta com vários projetos espalhados pela cidade e, atravessando as fronteiras, alcançou as vizinhas cidades de Franca, Jaboticabal e São Carlos. Uma forma, também, de agraciar nosso público cativo com esta produção escrita, cuja participação efetiva nos fomenta o rico trabalho de apresentar o “modo psicanalítico de pensar” através de filmes, bem como nossa capacidade onírica para a melhor apreensão daquilo que observamos na clínica.
            Sabendo que atividades como esta atualmente acontecem em muitas outras instituições psicanalíticas, estendemos o convite para o envio de artigos a todos os colegas, membros das Sociedades e Grupos de Estudos componentes da Federação Brasileira de Psicanálise, e a resposta positiva muito nos alegrou: recebemos inúmeros trabalhos, dos quais, com a participação do nosso corpo de pareceristas, selecionamos 11 para esta edição e criamos a sessão “Cinema & Psicanálise”, onde, a partir do próximo número, continuaremos a publicar autores interessados no tema.
            Agradecemos aos autores que, com seus textos aqui publicados, certamente apresentam discussões estimulantes a analistas e cinéfilos: Anette Blaya Luz, Silvana Rea, Nara Amália Caron & Rita Sobreira Lopes, Suad Haddad de Andrade, Silvana Vassimon, Izelinda Garcia de Barros, Péricles Pinheiro Machado Jr. & Belinda Piltcher Haber Mandelbaum, Luiz Celso de Castro Toledo, Ana Regina Morandini Caldeira, Cybelli Morello Labatte, e Luiz Moreno Guimarães & Thiago Emanuel Luzzi.
            Na sessão Resenha, apresentamos os ricos comentários de Luciano Bonfante sobre o livro Lanterna Mágica – autobiografia de Ingmar Bergman.
             Por fim, não deixem de apreciar a entrevista com Leopold Nosek, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e diretor executivo da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC) que, em conversa bastante interessante com a coeditora da Berggasse 19, Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis, fala sobre arte, Cinema, Psicanálise e Cinema & Psicanálise.
            A todos, uma boa leitura!

Rosângela Faria
Editora

                     
Referência
Gabbard, G. O. (1997). The psychoanalyst at the movies. The International Journal of Psychoanalysis.  Vol. 78 (p. 429-434).





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