terça-feira, 26 de maio de 2015

Comentários do filme "A menina que roubava livros", de Ana Regina Morandini Caldeira e de Déborah Agel Mellem, exibido no Cinema & Psicanálise de Franca em maio.

A menina que roubava livros

Ana Regina Morandini Caldeira
Psicanalista e Psicóloga

 Durante nossa existência, temos o privilégio de nos depararmos com muitas e encantadoras estórias cujos enredos são contados por uma variedade de autores, desde nossos avós aos mais consagrados escritores. “A menina que roubava livros” é uma mistura de fábula com a vida real, e comporta um toque criativo cuja narradora é a Morte, a qual se apresenta enquanto personagem apenas sugerido, mas nunca revelado e explícito. Versa sobre a consistência que podemos atribuir à nossa existência, e o quanto nos é possível associar suavidade, luta, transgressões construtivas, sonhos e coragem, como elementos que compõem nossa caminhada.
Baseado no best-seller de Markus Zusak, com adaptação cinematográfica homônima, conta sobre a comovente trajetória de Liesel, uma garota que em plena Segunda Guerra Mundial, buscava por elementos internos que pudessem mantê-la viva psiquicamente.
É um filme que vai muito além do velho clichê das guerras e do holocausto, sem se fixar nos horrores grotescos que normalmente eles revelam. De forma sensível e emocionante, fala sobre a riqueza dos encontros entre as pessoas. Revela-nos parcerias que se amparam na subjetividade da mente humana, a qual desvenda sempre uma brecha para a sobrevivência.
É uma estória sobre a nossa possibilidade de sonharmos, como uma condição essencial que constitui e constrói novas versões para a realidade. Podemos encará-la como tendo um enredo referente a um ensinamento: de que os afetos vencem a morte. Assim, deparamo-nos com uma obra que consegue a façanha de ter tanto delicadeza quanto beleza estética ímpares, mesmo em tempos de destruição.
A película tem início em 1938, época em que a menina e seu irmão devem ser separados da mãe comunista. Os dois são enviados para viverem no subúrbio de uma cidade alemã. Porém, ao longo da viagem de trem, o irmão morre. Apesar de ser analfabeta, Liesel rouba seu primeiro livro, denominado “Manual do Coveiro”, no funeral improvisado do irmão em meio à paisagem gelada da Alemanha, a fim de que pudesse manter viva a memória de quem tanto amava.
Nestas circunstâncias de desamparo inicial, acaba sendo adotada por uma família germânica que não concordava com o regime nazista. Uma pobre família com escassos recursos de sobrevivência financeira, porém com uma vastidão de elementos acolhedores e amorosos. Ressalta-se a figura do pai adotivo, através da perfeita atuação do premiadíssimo Geoffrey Rush, e de sua generosidade e musicalidade. Com este sensível pai, aprende a ler e a representar em palavras e expressões, tanto suas imagens externas quanto as internas. Nas andanças do tempo, Liesel é mais que uma sobrevivente, é autora da própria vida, cujos meandros se dão à passos firmes e criativos.
No transcorrer do roteiro, vemos que ela continua a roubar livros, em suas mais variadas formas. Faz uso das estórias que lê, e daquelas que posteriormente também escreve, como uma tentativa e recurso de manter-se viva. Através de suas narrativas, ela elabora seus pesadelos e dores, reconstruindo-os em sonhos possíveis de serem vividos.
Os personagens são cativantes, como a obstinada e vitalizada ladra de livros: a protagonista Liesel, que é interpretada por Sophie Nélisse com presença extremamente carismática; os humanizados pais adotivos: Hans e Rosa; seu melhor e fiel amigo: Rudy; e o rapaz judeu escondido no porão: Max.
Colher as almas dos seres humanos e levá-las para além de nosso contexto concreto, são funções e trabalho rotineiro da Morte, que se constitui como narradora dessa bela história de vida. Ela observa com certa indiferença a trajetória das pessoas em seu curto tempo de existência, e normalmente envolve-se muito pouco com elas, salvo se estas forem especiais. No final, a narradora revela sua profunda admiração e respeito aos vivos que lutam, sendo capazes de construírem possibilidades para além de suas dores e limitações.
Há uma junção harmoniosa de roteiro consistente, direção de arte cuidadosa, fotografia irretocável, e a música do aclamado compositor John Williams, que fizeram com que este filme fosse visto no Brasil por cerca de 1,3 milhão de pessoas. Vamos revê-lo juntos, também neste sábado em nosso encontro do Cinema e Psicanálise, com a proposta de podermos pensar em quais elementos fazem com que nossa vida possa valer a pena e se sobrepor à morte.

Biografia de Brian Percival
Nasceu em Liverpool, Reino Unido.
Iniciou sua carreira como produtor de respeitados comerciais, e posteriormente tornou-se um diretor de comerciais de grande sucesso.
Recebeu o prêmio BAFTA de cinema, com o melhor curta metragem “About a Girl”, em 2001.
Desde 2010 ele dirigiu sete episódios da TV britânica, como dramas de época, denominados “Downton Abbey”. Por seu trabalho na série, ganhou em 2010 o BAFTA Craft, prêmio de melhor diretor de ficção.
Em 2012, foi indicado para o Prêmio Emmy Primetime para melhor direção de série de drama por "Episode 7".
É o diretor do filme “A Menina que Roubava Livros”, de 2013, baseado no livro de grande sucesso de Markus Zusak.




Comentários filme- A menina que roubava livros

Débora Agel Mellem
Psicóloga/ Membro filiado da SBPRP

Este filme dirigido por Brian Percival e baseado no livro homônimo de Markus Zusak, narra a comovente estória da menina Liesel (Shophie Nélisse), vítima de situações traumáticas extremas, ocorridas na Segunda Guerra Mundial, mas que demonstra uma incrível força de vida. Perseguida pelo nazismo por ser comunista, sua mãe entrega Liesel e o irmão para serem adotados por um casal (Geffrey Rush e Emily Watson) que se dispõe a cuidar das crianças por dinheiro.
Os sofrimentos da protagonista do filme vêm como avalanche: é afastada de sua mãe, de seu lar e no trajeto para sua nova casa, seu irmão morre. Como sobreviver a uma realidade tão assustadora? A menina precisava se agarrar a algo que pudesse lhe oferecer algum referencial, um elo com sua família. No enterro de seu irmão, Liesel pega um livro que o coveiro havia deixado cair na neve. Mesmo não sabendo ler, a garota carrega este livro, que se tornará um primeiro veículo para sua alfabetização. Apaixona-se pela leitura e passa a roubar livros, alcançando o mundo das palavras e da literatura, universo simbólico fundamental para lidar com suas dores, perdas e para descobrir algum sentido no viver. Este caminho esperançoso só ocorreu porque Liesel teve a companhia amorosa, acolhedora e lúdica de seu pai adotivo e também de seu amigo Max (Ben Schnetzer), um jovem judeu que mantinha-se escondido no porão de sua casa.
Yolanda Gampel, psicanalista que mora em Israel há décadas, trabalhou com órfãos de pais que foram mortos no Holocausto, genocídio de seis milhões de judeus. Pesquisou como estas crianças haviam enfrentado essa situação de perderem tudo num único dia e no que se apegavam para reconstruir suas vidas. Observou que haviam objetos, que lhes traziam lembranças de seus lares e que eram um tesouro que ajudavam-lhes a viver. Desde 2005, a Associação Psicanalítica Internacional - IPA (entidade da qual a SBPRP é filiada), através de um Comitê nas Nações Unidas, tem promovido reflexões sobre trabalhos com grupos de pessoas em situações de guerra e violência em geral. A escuta psicanalítica é usada como um meio de favorecer a elaboração de situações traumáticas e prevenir que o ódio entre os povos seja transmitido através de gerações.
Freud, no seu texto Reflexões para os tempos de guerra e morte (1915) e em sua correspondência com Einstein (1932) sobre este mesmo tema, aborda os aspectos primitivos, selvagens, presentes no ser humano e a força de seus impulsos destrutivos. E enfatiza que tudo que contribui para o crescimento cultural também trabalha contra a guerra.
Podemos pensar no país que vivemos e mais perto, na nossa cidade e no poder de Eros, impulso de vida, que se manifesta em preciosos trabalhos educacionais que existem em Franca. Destaco a importância das atividades culturais da ONG Academia de Artes e, em específico, o trabalho de Sônia Machiavelli, no desenvolvimento da leitura e escrita de crianças e jovens.
As armas da psicanálise e da educação consistem em ouvir o diferente, alcançar palavras, através de laços afetivos e expandir a capacidade criativa do ser humano. Nossa Comissão de Cinema e Psicanálise de Franca convida a todos para o próximo encontro, dia 16, sábado, no Centro Médico, a partir das 15 horas, onde o filme será comentado pela psicanalista Ana Regina Morandini Caldeira, membro associado da SBPRP.



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