segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Cinema e Psicanálise de Franca apresentou Relatos Selvagens (2014) neste último sábado, dia 19. A palestrante Dra. Ana Márcia Vasconcelos de Paula Rodrigues, psiquiatra-psicanalista e membro associado da SBPRP, comentou o filme:

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Para comemorar o aniversário de 8 anos do Cinema e Psicanálise de Franca, tivemos o prazer de assistir juntos ao ótimo filme argentino de 2014, Relatos Selvagens, que é uma produção de Pedro Almodovar a partir do brilhante roteiro do diretor Dámian Szifron. Esta parceria resultou em enorme sucesso de público e crítica e também em várias premiações.

Principais personagens de "Relatos Selvagens" (Imagem: divulgação)

A meu ver, este longa nos proporciona uma experiência libertadora de contato com nossa emocionalidade, através do acesso à identificação psíquica estabelecida com as estórias tragicômicas de seus protagonistas. O refinado senso de humor do diretor nos desarma do julgamento prévio e do preconceito com o fluxo das paixões retratadas em seis estórias independentes, mas interligadas na temática comum de vivências de extrema turbulência mental.

Ao vermos o filme, sentimos que não estamos sozinhos quando sofremos o impacto de emoções e pensamentos selvagens, em situações da vida que ultrapassam nossos limites.

Ao invés de suprimir/abolir tais emoções turbulentas, precisamos encontrar um canal de comunicação para as mesmas, pois estanca-las pela dor que nos provocam, equivale a bloquear fontes de vida psíquica. Se tivermos a liberdade de ver/conhecer a “fera” que naturalmente somos em áreas de turbulência emocional, alcançamos a capacidade real de estar e sentir-se vivo.

Afinal, a vida, por si só, não é um relato selvagem?

Assim nos conta o poeta Drummond em seu poema Fera:

“Às vezes o tigre em mim se demonstra cruel

Como é próprio da espécie.

Outras, cochila

Ou se enrosca em afago emoliente

Mas sempre tigre; disfarçado.”

A experiência de estarmos e nos sentirmos plenamente vivos no mundo pode tornar-se inteira somente quando nos abrimos para a “terrível e fascinante visão de nossa natureza humana”.

A psicanálise, desde Freud, sempre teve enorme interesse e respeito por tudo o que é arcaico e primitivo no homem, buscando conhecer os aspectos primários essenciais da mente, sem condená-los ou depreciá-los. Afinal, nada é mais perigoso para o animal humano do que se esquecer de sua real condição e querer se igualar aos deuses.

Se nossa vida mental impreterivelmente nasce a partir de emoções selvagens, somente irá desenvolver-se através de ciclos de experiências afetivas capazes de reconhecer o que há de construtivo e destrutivo em cada emoção, não havendo pureza quando se trata do humano. Obviamente, cada relação humana é predominantemente benigna ou maligna, dependendo de como os vínculos de paixão se constituem, como podemos ver nas estórias “demasiadamente humanas” do filme.

A dificuldade de se ter uma mente própria e consistente para sustentar-se perante os impactos da vida, pode estar ligada ao predomínio de ligações afetivas superficiais e incapazes de ativar áreas de intimidade psíquica. Assim como ocorre na estória do filme que mostra dois homens desconhecidos e visivelmente muito diferentes, competindo por superioridade narcísica em uma rodovia, o que faz com que aquilo que seria uma corriqueira briga de trânsito se transforme em questão de vida ou morte.

Sem dúvida, precisamos de relações íntimas a nos alimentar e assim desenvolvermos mente suficiente para pensar as paixões e fazer escolhas genuínas a serviço da vida.

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