quinta-feira, 26 de maio de 2011

Dr. Roosevelt Cassorla, médico, psicanalista e membro efetivo da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, conta um pouco de como será o curso que ministrará no XXIII Congresso Brasileiro de Psicanálise

Por Dayane Malta
MTB - 61585/SP


Boa noite pessoal!

Hoje nós convidamos o médico, psicanalista e membro efetivo da SBPSP, Dr. Roosevelt Cassorla, para falar sobre a reflexão psicanalítica chamada “Acting e Enactment: A Clínica do Trauma e a busca da Simbolização”, que ministrará no XXIII Congresso Brasileiro de Psicanálise.

O Dr. Cassorla começou sua vida profissional na Medicina Preventiva como professor da Unicamp. Passado um tempo, transferiu-se para o departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria, e partir desse momento passou a dedicar-se basicamente à psicologia médica e psicoterapia com adolescentes.

O estudo sobre suicídio o aproximou de pacientes graves, que foram o estímulo inicial para as linhas de investigação de seu interesse.  O passo seguinte foi à formação analítica e graças ao clima aberto e criativo da SBPSP pôde se desenvolver em vários aspectos e aos poucos ficou mais interessado em compreender melhor o que ocorre no campo analítico.

“Vejo-me inserido no que tem se chamado ‘Psicanálise Contemporânea’ que a entendo como intersubjetiva, anti-escolástica e anti-dogmática, que valoriza a experiência clínica e vê as teorias como formas provisórias de dar-lhes sentido,” afirma.

Atualmente é membro didata da SBPSP e professor titular convidado da Unicamp, além de Membro do Núcleo de Psicanálise de Campinas e Região. “Meus interesses em Psicologia Médica me fazem manter, há muitos anos, um grupo Balint, onde médicos discutem sua atividade valorizando aspectos emocionais”, diz.

Limites: Por favor, fale um pouco sobre o curso que você ministrará no XXIII Congresso Brasileiro de Psicanálise, em Ribeirão Preto. Qual é o seu objetivo? Qual público ele será destinado?

Dr. Cassorla: Eu, juntamente com o colega Mauro Gus, de Porto Alegre, vamos abordar os aspectos relacionados ao trauma e ao enactment. Ambos temos estudado e publicado sobre esse assunto.

Enactment é um termo, cada vez mais utilizado, que descreve situações de recrutamento de ambos os membros da dupla quando envolvidos em áreas de simbolização perturbada. A capacidade de pensar é obstruída e parece predominar a descarga de elementos não pensados. No entanto, temos demonstrado que esses fatos obstrutivos incluem um trabalho de sonho implícito, em que a dupla – ao mesmo tempo em que parece paralisada – implicitamente tenta recuperar áreas traumáticas.

O que tenho chamado “enactment agudo”, isto é, uma aparente explosão do campo analítico, se constitui num trauma atenuado, possível de emergir graças ao trabalho implícito da dupla analítica. Temos trabalhado para evitar que supostos erros cometidos pelo analista sejam compreendidos para além de condenações moralísticas e, com as exceções previsíveis, temos verificado que sua compreensão ajuda a aprofundar o processo analítico com pacientes graves. Este curso “Trauma e enactment” será aberto para toda a comunidade psicanalítica.

Limites: Quais atividades serão desenvolvidas durante o curso? O que está sendo preparado?
Dr. Cassorla:
Além da atividade que citei, teremos a “Microscopia da Sessão Analítica”, esta aberta apenas para  candidatos e membros em formação. Trata-se de estudar uma sessão analítica em detalhes, através da discussão em grupo. Teremos 4 horas para tal.

Essa atividade é baseada nas experiências que tive em Working Parties dos quais participei em vários Congressos Internacionais, fruto principalmente das idéias de Haydée Faimberg, analista argentina radicada em Paris, que estuda a “escuta da escuta”. Utilizo método similar ao dela, estimulando que os participantes “sonhem” pequenos trechos de sessão e discutam seus sonhos. A sequência da sessão validará ou não os “sonhos” anteriores. Busco de certa forma, as teorias implícitas nessa escuta.

A “Microscopia da Sessão Analítica” vem sendo realizada com os membros filiados da SBPSP há três anos e tem se revelado muito estimulante. Estou esperançoso que algo similar ocorra no Congresso.

Limites: Como você vê o tema Limites: prazer e realidade, tema do XXIII Congresso Brasileiro de Psicanálise?
Dr. Cassorla: Como diz Woody Allen: “Detesto viver na realidade, mas é o único lugar onde posso comer um bom bife com batatas fritas”.  Sem considerar o fenômeno psicótico manifesto, a vida pode, aparentemente, ser sentida como "ótima” se vivemos fora dela, narcísica ou maniacamente, mas o preço a ser pago costuma ser alto, para o indivíduo, para o grupo social ou para ambos.

A riqueza da vida é função da relação com o outro. Esse outro nos enriquece, nos faz pensar, nos fertiliza, permite o desenvolvimento da cultura. Mas, esse mesmo outro exige que o consideremos e o respeitemos em sua individualidade. A Ética se inicia quando percebemos sua presença. Mas, somente podemos ter essa percepção e respeito, se conseguimos elaborar o contato com a realidade, isto é, a assunção da triangularidade edípica.

A grande maioria das patologias, individuais e sociais, implica em relações narcísicas ou duais, em que o outro é vivido como um prolongamento do si-mesmo, visando seu controle sedutor e/ou destrutivo. Mas, a maldade pode ocorrer também em áreas de discriminação self-objeto.

A psicanálise, com certeza, é uma área de conhecimento ímpar para compreender e lidar com isso e o Congresso nos fará trocar idéias sobre aspectos individuais, grupais, familiares e sociais dessas situações. Penso, no entanto, que a psicanálise ainda não tem recursos nem teorizações suficientes para lidar com a maldade. Sabemos que ela, incipiente, pode desenvolver-se e tornar-se extrema, contaminando os demais e tornando-se hegemônica.

* Dr. Roosevelt Cassorla
ministrará o curso “Acting e Enactment: A Clínica do Trauma e a busca da Simbolização”.  Se você se interessou em participar clique aqui e saiba mais informações sobre o XXIII Congresso Brasileiro de Psicanálise.  Garanta sua vaga antecipadamente!

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